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As mais antigas vinhas de Malbec no Chile

Em Los Callejones, na pequena localidade de San Rosendo, a família Rozas conserva muitas velhas vinhas, com particular destaque para a Malbec, casta que se tornou uma das marcas da propriedade e que aqui encontra expressão em vinhas centenárias. Hoje, pai e filhos juntam à produção de vinho um projecto de enoturismo que nasceu quase por acaso e foi crescendo à medida que mais visitantes começaram a chegar à propriedade.

A história da Viña Sanroke, no sector de Los Callejones, a cerca de 12 quilómetros de San Rosendo, é a de uma família que esteve perto de desistir da vinha, mas acabou por encontrar nela uma razão para continuar, unindo hoje José Luis Rozas e o filho Cristian, duas gerações com percursos diferentes em torno do mesmo projecto.

A família produz vinho há várias décadas. José Luis herdou as terras do pai, continuando uma viticultura que no passado esteve associada aos tradicionais pipeños (vinhos tradicionais armazenados e comercializados em pipas de madeira), vendido a granel ou garrafões. O rendimento era pouco e, tal como aconteceu com outros pequenos viticultores, chegou a colocar-se a hipótese de abandonar a vinha. O terramoto de 2010, que danificou duas antigas adegas de adobe (construção tradicional chilena que utiliza tijolos feitos de terra crua, geralmente uma mistura de barro, areia, palha e água, secos ao sol), tornou a situação ainda mais difícil.

Curiosamente, seria também na sequência do terramoto que a família começaria a perceber melhor o valor das vinhas que tinha. Durante um levantamento dos danos realizado na região, o engenheiro agrónomo Víctor Vásquez, técnico do Prodesal (Programa de Desarrollo Local, desenvolvido pelo INDAP – Instituto de Desarrollo Agropecuario), visitou a propriedade e acabou por facilitar o contacto com Juan Ledesma, também engenheiro agrónomo e ligado ao mundo do vinho. Foi então que perceberam que uma velha casta que todos conheciam simplesmente por ‘Burdeo’ devido à cor particularmente intensa dos seus vinhos, e utilizada para reforçar a cor de outros, era afinal a casta Malbec.

Segundo a família, algumas destas vinhas têm mais de 150 anos e, de acordo com a ProChile (agência pública responsável pela promoção das exportações chilenas), são as mais antigas da variedade Malbec no Chile. Cultivadas em sequeiro, em solos onde encontramos argila e granito, sobreviveram durante décadas quase incógnitas. Há referências a cerca de um hectare de Malbec antigo, com aproximadamente duas mil plantas, além das velhas vinhas de País. Na propriedade coexistem ainda outras castas para a produção de vinhos distintos e a Sanroke não utiliza fertilizantes, procurando trabalhar estas vinhas com uma intervenção mínima.

O Enoturismo surgiu de forma natural, as pessoas começaram a procurar a propriedade
A vinha de Malbec tem mais de 150 anos
É possível dormir em Sanroke
O visitante pode dormir no Domo e tomar banho numa tina de água quente
Estruturas enquadradas na paisagem de San Rosendo



O mais curioso é que a Malbec esteve perto de desaparecer antes de alguém perceber exactamente o que ali estava. Há relatos de que originalmente existiriam cerca de três hectares, dos quais dois terão sido arrancados quando a identidade da casta ainda era desconhecida. O vinho tinha uma cor tão carregada que chegava a levantar suspeitas entre quem o comprava. Aquilo que durante anos foi apenas o Burdeo da família acabaria por se tornar uma das principais razões para continuar a apostar na vinha.

Os filhos tiveram um papel importante nesta mudança. Cristian Rozas é advogado e construiu a sua vida profissional fora da viticultura, mas decidiu ajudar o pai a desenvolver o projecto. O irmão Felipe também se envolveu, sobretudo nas áreas da gestão, operações e vendas. Entretanto, em vez de continuarem exclusivamente dependentes da venda de vinho a granel, começaram a procurar outra valorização para as uvas que tinham em casa e avançaram para o engarrafamento com marca própria.

A Malbec tornou-se assim uma das principais referências da Sanroke, embora a gama mostre que o trabalho da família não se limita a esta casta. Na nossa visita, Cristian propôs-nos uma prova de três vinhos distintos, permitindo perceber diferentes expressões da casa: o Viejo Riel Gran País, elaborado a partir da histórica casta País; o Santo Grial Malbec Gran Reserva, que representa a aposta da família na Malbec e numa expressão mais estruturada; e o Katripache Reserva, um Carménère de perfil frutado, com notas de especiarias e apontamentos herbais e minerais. A escolha dos três permitiu-nos, assim, provar lado a lado País, Malbec e Carménère, mostrando uma gama que cruza o património vitícola mais antigo da propriedade com outras castas trabalhadas pela Sanroke. Entre muitos mais vinhos da casa encontra-se ainda o Tricauco, talvez aquele que melhor resume o património da casa, ao reunir Malbec e País em proporções muito semelhantes, provenientes de vinhas antigas que a família identifica como tendo mais de 150 e 300 anos, respetivamente. Com estágio de 12 meses em barrica de carvalho francês, é um vinho fresco e estruturado, com final longo, já distinguido em concursos.

Com o tempo, a gama foi crescendo, e hoje encontramos também vinhos de País, Moscatel de Alejandría e Carignan, entre outras referências. Mas é difícil passar pela Sanroke sem regressar ao Malbec, até porque a história destas plantas ajuda a compreender como algumas castas sobreviveram no sul do Chile sem que durante décadas se soubesse exactamente aquilo que se tinha nas mãos.

Adega velha
Recuperou-se o espaço para visitar e fazer provas de vinho
Cristian Rozas conduziu a prova de vinhos



A Malbec tornou-se assim uma das principais referências da Sanroke, embora a gama mostre que o trabalho da família não se limita a esta casta. Na nossa visita, Cristian propôs-nos uma prova de três vinhos distintos, permitindo perceber diferentes expressões da casa: o Viejo Riel Gran País, elaborado a partir da histórica casta País; o Santo Grial Malbec Gran Reserva, que representa a aposta da família na Malbec e numa expressão mais estruturada; e o Katripache Reserva, um Carménère de perfil frutado, com notas de especiarias e apontamentos herbais e minerais. A escolha dos três permitiu-nos, assim, provar lado a lado País, Malbec e Carménère, mostrando uma gama que cruza o património vitícola mais antigo da propriedade com outras castas trabalhadas pela Sanroke. Entre muitos mais vinhos da casa encontra-se ainda o Tricauco, talvez aquele que melhor resume o património da casa, ao reunir Malbec e País em proporções muito semelhantes, provenientes de vinhas antigas que a família identifica como tendo mais de 150 e 300 anos, respetivamente. Com estágio de 12 meses em barrica de carvalho francês, é um vinho que já recebeu distinções em concursos.

Com o tempo, a gama foi crescendo, e hoje encontramos também com Moscatel de Alejandría e Carignan, entre outras referências. Mas é difícil passar pela Sanroke sem regressar ao Malbec, até porque a história destas plantas ajuda a compreender como algumas castas sobreviveram no sul do Chile sem que durante décadas se soubesse exactamente aquilo que se tinha nas mãos.O Enoturismo surgiu mais tarde e de uma forma bastante natural. À medida que os vinhos começaram a ser conhecidos, apareciam pessoas na propriedade para comprar garrafas e perguntavam se podiam conhecer as vinhas e a adega. A família começou por criar uma pequena sala de vendas, depois preparou um espaço maior para receber grupos e, com o aumento das visitas, juntou gastronomia e alojamento.

Hoje é possível fazer uma prova de vinhos na velha adega, e dormir na propriedade num domo enquadrado na paisagem rural de San Rosendo, com uma banheira exterior de água quente. A ideia surgiu com a evolução das próprias visitas e resolveu também uma questão bastante prática, que é a do visitante poder provar vinhos sem ter de conduzir a seguir.

Em Sanroke, a família Rozas continua a escrever a sua história com uma ligação profunda à terra e a um património que atravessou o tempo. A simplicidade do lugar, a proximidade de quem nos recebe e um ritmo que ainda parece escapar à pressa dos nossos dias dão a esta propriedade um carácter muito próprio.