Estación Yumbel, velhas raízes, novos vinhos
Entre os produtores que conheci durante a minha passagem pelo Bío-Bío, a Estación Yumbel é um bom exemplo da mudança que está a acontecer nesta região vitivinícola do sul do Chile. Criado pelo casal Mauricio González Carreño e Daniela Tapia, é um pequeno projecto familiar que trabalha com vinhas antigas, castas históricas e métodos de vinificação que fazem parte da tradição local, seguindo uma filosofia de intervenção mínima.
A história começa com Mauricio, que é agrónomo e enólogo, e trabalhou durante vários anos em diferentes projectos vitivinícolas no Chile e na Argentina. O contacto com Pedro Parra, produtor de vinhos e especialista chileno em solos e terroir, um dos seus mentores, foi importante para despertar a sua atenção para as velhas vinhas do sul do Chile. Foi neste percurso que chegou a Yumbel e encontrou um património vitícola que acabaria por determinar o caminho que viria a seguir.
Vinhas antigas de sequeiro, muitas ainda conduzidas no tradicional sistema em vaso, sem os arames das vinhas modernas; castas que durante décadas foram pouco valorizadas e uma tradição de pequenos viticultores que continuavam a fazer vinho com recurso a técnicas e recipientes usados há várias gerações, foram alguns dos argumentos para ficar.
A Estación Yumbel ganhou forma nos anos seguintes. Daniela Tapia, engenheira, vivia então em Santiago, onde chegou a ter um café no conhecido Barrio Italia. Mudou-se depois para Yumbel e juntou-se ao projecto. Mauricio concentra-se sobretudo na vinha e na elaboração dos vinhos, enquanto Daniela assume grande parte da gestão e da área comercial.
A estrutura é pequena e familiar, como acontece com vários dos projectos que encontrei nesta zona do Bío-Bío. Os rótulos são ilustrados e coloridos e acompanham a imagem pouco convencional dos vinhos. Recordo-me de, durante a visita, termos falado sobre a ligação das ilustrações à família de Daniela, mas já não me recordo quem é o autor, creio que um primo ou irmão. O que é certo é que os desenhos são interessantes e chamam a atenção.
Entre os vinhos que provei, o Juana Rosa País destacou-se. A País é uma das castas fundadoras da viticultura chilena, levada para a América pelos espanhóis no século XVI e dominante durante séculos. Com a chegada das castas francesas, no século XIX, foi perdendo protagonismo e ficou durante muito tempo associada a vinhos simples e de consumo corrente. Hoje, as velhas vinhas que sobreviveram sobretudo no centro e sul do Chile estão a ser olhadas de outra maneira.
No Juana Rosa, as uvas são provenientes de uma vinha situada no sector de El Fuerte, em Yumbel, com videiras que, segundo Maurício, ultrapassam os 200 anos. São plantas em pé-franco, conduzidas em vaso e cultivadas em sequeiro, num solo onde se misturam materiais basálticos provenientes de erupções vulcânicas e granito. A vindima é manual e a fermentação espontânea, realizada num lagar de raulí, madeira de uma árvore nativa chilena que foi durante muito tempo utilizada na vinificação nesta parte do país. O vinho permanece depois cerca de seis meses em depósito e é engarrafado sem estabilização nem filtração.
Além da recuperação das castas tradicionais, outro trabalho interessante de Mauricio é o vinho Malbec da Estación Yumbel. Em vez de arrancar as velhas plantas de País e instalar uma vinha nova, Mauricio e Daniela optaram por enxertar Malbec sobre essas plantas, aproveitando sistemas radiculares que estavam há muito adaptados ao solo e às condições de Yumbel. A primeira vindima comercial aconteceu em 2018. É uma solução interessante porque mostra que preservar uma vinha antiga não significa necessariamente deixá-la exactamente como estava. Neste caso, as raízes permanecem e muda a casta que produzem à superfície.
O produtor tem ainda mais vinhos, como o branco Tinaja, elaborado a partir de Moscatel de Alejandría, outra das castas com uma longa história no sul chileno e que, na prova que fizemos, não me despertou o mesmo interesse dos anteriores. A história por detrás do vinho merece, contudo, ser contada. Trata-se de um orange wine, fermentado e macerado durante cerca de seis meses com as películas em antigas tinajas, grandes recipientes de barro utilizados durante gerações pelos pequenos produtores chilenos e progressivamente abandonados com a modernização das adegas. Na Estación Yumbel voltaram a ter lugar na produção. O mesmo acontece com os lagares de raulí. Muitos desapareceram com a modernização das adegas e são hoje difíceis de encontrar, até porque praticamente deixaram de existir artesãos capazes de os construir. Na Estación Yumbel continuam a servir para fazer vinho.
A Estación Yumbel não é um caso isolado. Em redor destas vinhas formou-se uma pequena comunidade de produtores que desenvolvem projectos independentes, mas partilham uma atenção particular pelo património vitícola da região. É nesse contexto que encontramos também Manuel Moraga, de quem já vos falei na semana passada Cacique Maravilla, e com quem Mauricio e Daniela mantêm uma relação próxima.
Como pequeno projecto, a Estación Yumbel ajuda a perceber a mudança que está a acontecer nesta parte do Bío-Bío. Mauricio e Daniela encontraram nas velhas vinhas e nas práticas que outros deixaram para trás o caminho que querem seguir. Por aqui, o futuro do vinho pode muito bem estar no passado.