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Três manhãs a cuspir vinho que nem uma louca

O maior concurso internacional de vinhos do mundo continua a ter o nome da capital da Bélgica, embora viaje há muito pelo mundo. Mas como funciona realmente o Concours Mondial de Bruxelles? Quem prova os vinhos? Como são atribuídas as medalhas? E porque é que centenas de profissionais passam três manhãs seguidas a provar e a cuspir vinho?

Há muitos anos que participo em concursos internacionais de vinhos e, ainda hoje, quando explico a alguém que vou estar três dias seguidos a provar vinhos, a reação costuma oscilar entre a inveja e a perplexidade. A conversa torna-se normalmente mais divertida quando acrescento que, na verdade, passo grande parte desse tempo a cuspir vinho!

Para quem está fora do setor, a ideia parece estranha. Afinal, porque razão alguém atravessa meio mundo para se sentar durante três manhãs consecutivas fechados num pavilhão internacional a provar dezenas de vinhos? A pergunta é legítima mas a resposta ajuda a perceber porque é que concursos como este têm um papel tão relevante no mundo do vinho. Porque são um ponto de encontro entre especialistas de diferentes países, culturas e mercados, onde se analisam tendências, se partilham conhecimentos e se constrói uma visão global sobre a evolução do setor. Para os provadores (como eu) constitui uma oportunidade rara de provar vinhos provenientes de dezenas de países, permitindo aferir tendências, comparar estilos e perceber qual é, em cada momento, o padrão médio de qualidade da produção mundial. São também uma oportunidade para descobrir realidades vínicas às quais dificilmente teriam acesso de outra forma (poder podia, mas perdia mais tempo e dava muito mais trabalho). Este ano, por exemplo, provei pela primeira vez uma série completa de vinhos da Índia, um país cuja produção continua pouco conhecida para a maioria dos profissionais europeus.

Já para os produtores, enviar os seus vinhos para o Concours Mondial de Bruxelles (CMB) representa terem uma avaliação independente e internacional dos seus vinhos. E para o mercado, funciona como um observatório privilegiado da qualidade, da evolução dos estilos e das preferências dos consumidores.

A origem nome gera frequentemente alguma confusão. Apesar de se chamar Concours Mondial de Bruxelles, o concurso raramente se realiza em Bruxelas. A explicação é simples: o projeto nasceu na Bélgica, em 1994, pela mão de Louis Havaux, jornalista e editor ligado ao setor vitivinícola. A primeira edição teve lugar em Bruges, mas a organização estava sediada em Bruxelas e foi esse o nome que acabou por ficar associado a um concurso que, desde o início, procurou afirmar-se numa dimensão internacional.

Nessa primeira edição participaram cerca de 800 vinhos. Hoje, o número ultrapassa largamente as quinze mil amostras e o concurso é considerado uma das maiores competições internacionais do sector. Contudo, talvez mais importante do que os números seja a forma como a organização foi evoluindo ao longo dos anos. Em 2006, os responsáveis tomaram uma decisão que alterou definitivamente a identidade do concurso, que foi deixar de estar ligado a um único país e passar a realizar-se todos os anos numa região vitivinícola diferente. A lógica era simples. Se o concurso pretendia ser mundial, fazia sentido que viajasse pelo mundo e que fosse conhecendo diferentes territórios produtores.

Foi assim que o CMB começou a percorrer diversos países, passando por destinos tão distintos como Portugal, França, Espanha, Itália, Luxemburgo, Suíça, Chile, México, China ou Arménia, entre tantos outros. Portugal, por exemplo, repetiu a ‘proeza’ e recebeu o concurso em Lisboa, em 2006, e mais tarde em Guimarães, em 2012. E como, lá diz o ditado, não há duas sem três, em 2027 será a vez do Douro, Património da Humanidade pela UNESCO, e uma das regiões mais simbólicas onde o  vinho é uma parte tão importante da sua identidade.

Ao longo de mais de três décadas, o CMB foi consolidando uma reputação assente na prova cega absoluta, na diversidade dos jurados provenientes de inúmeras nacionalidades, no rigor metodológico que sustenta todo o processo de avaliação e numa política de atribuição limitada de medalhas, garantindo que cada distinção mantém o seu prestígio e valor.

Hoje, o número ultrapassa largamente as quinze mil amostras de vinho



As regras do ‘jogo’

Quando os vinhos chegam à mesa dos provadores, não existe qualquer informação sobre o produtor, a marca ou a região. Não vemos garrafas nem rótulos. Em muitos casos apenas é indicada a colheita, tudo o resto desaparece para que a avaliação seja feita exclusivamente com base naquilo que está dentro do copo. Pode parecer um detalhe, mas não é, porque no vinho, como em tantas outras áreas, os preconceitos existem e o anonimato continua a ser uma das melhores formas de garantir imparcialidade.

Cada mesa é composta normalmente por cinco ou seis jurados de diferentes nacionalidades e perfis profissionais. Encontramos enólogos, sommeliers, jornalistas especializados, compradores, distribuidores e académicos. A diversidade não é acidental, pelo contrário, faz parte do modelo de avaliação, precisamente para evitar que uma única visão domine os resultados.

Nos últimos anos tenho desempenhado a função de Presidente de Mesa, um papel que me permite acompanhar de perto o perfil de provadores e comparar as suas avaliações. No início, antes de começarem as provas, existe uma sessão de calibração dos dois primeiros vinhos, durante a qual todos os membros da mesa avaliam com o objetivo de alinhar critérios e perceber se existem diferenças demasiado acentuadas entre provadores mais conservadores e outros mais generosos na atribuição de pontuações.

Terminada essa fase, inicia-se a prova propriamente dita. Cada jurado avalia individualmente dezenas de vinhos, observando o seu aspeto visual, analisando a intensidade e qualidade aromática, avaliando a estrutura em boca, a persistência e a harmonia global do conjunto. A classificação é atribuída de forma individual e não existe qualquer discussão coletiva sobre os vinhos em prova. Não há debate, negociação ou votação por consenso. Cada jurado regista a sua avaliação de forma autónoma e as classificações seguem diretamente para tratamento estatístico. O objetivo não é chegar a uma opinião comum, mas reunir opiniões independentes e transformá-las num resultado o mais objetivo possível (o que não invalida de conversarmos no final e de dar muitas vezes umas boas gargalhadas).

É nesta avaliação dos jurados é muito exigente e é nela que reside uma das maiores forças do CMB. O concurso utiliza um sistema estatístico desenvolvido em colaboração com a Universidade Católica de Lovaina que permite corrigir diferenças de perfil entre provadores. Afinal, todos sabemos que existem jurados que tendem a pontuar de forma mais exigente e outros que, por natureza, distribuem classificações mais elevadas. Sem este tratamento, os resultados poderiam variar significativamente consoante a composição de cada mesa. Com ele, procura-se garantir que todos os vinhos são avaliados em condições comparáveis.

Há ainda um pormenor particularmente interessante. Em cada sessão surgem normalmente dois vinhos repetidos, servidos em momentos diferentes e sem qualquer indicação aos jurados. Na prática, trata-se de uma forma de avaliar a consistência de quem está a provar. É um exercício simultaneamente desafiante e pedagógico, porque nos obriga a confrontar a nossa própria capacidade de análise. Quando as classificações atribuídas ao mesmo vinho coincidem ou apresentam diferenças mínimas, sabemos que estamos a manter uma linha de avaliação coerente. Quando isso não acontece, a lição é igualmente útil (e se calhar somos excluídos de continuar a provar nas próximas edições (?) digo eu).

No final de todo este processo, são atribuídas as medalhas. Os vinhos que alcançam 92 pontos ou mais recebem a Grande Medalha de Ouro. A Medalha de Ouro é atribuída a partir dos 89 pontos, enquanto a Medalha de Prata exige pelo menos 88 pontos. Os vinhos com 86 pontos ou mais recebem uma distinção de Mérito. Contudo, existe uma regra adicional que reforça a exigência do concurso. Na prática, apenas cerca de 30% das amostras recebe distinções.

Esta combinação entre anonimato, diversidade internacional, rigor metodológico e controlo estatístico explica porque é que o CMB continua a ser uma referência para produtores e consumidores em todo o mundo. E talvez explique também porque é que centenas de profissionais continuam dispostos a passar três manhãs consecutivas a fazer algo que, visto de fora, parece, no mínimo, bastante ‘peculiar’.