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Um Porto intemporal

A Menin Wine Company apresentou recentemente um Porto Tawny de edição muito limitada, no Douro, num evento que reuniu especialistas e parceiros, com a presença do proprietário e fundador, o empresário brasileiro Rubens Menin, e de sua mulher, Beatriz. Um vinho da categoria Very Very Old (VVO), definida pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto para tawnies com envelhecimento médio superior a 80 anos em madeira, e que integra lotes com mais de um século.

A adega da Menin Wine Company, no Douro, foi o cenário escolhido para a apresentação do Rubens Menin Very Very Old Tawny, um dos lançamentos mais exclusivos e recentes na região. O jantar decorreu no interior da adega, com a presença de Rubens Menin e de sua mulher, Beatriz, num registo sofisticado alinhado com o posicionamento do vinho.

O lançamento centrou-se num Porto que integra a categoria Very Very Old (VVO), uma designação relativamente recente no universo do Vinho do Porto, definida pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, formalmente enquadrada em 2019. De acordo com a regulamentação, esta classificação é atribuída a vinhos com envelhecimento médio superior a 80 anos em madeira, provenientes de lotes de diferentes colheitas e sem indicação de idade no rótulo. Trata-se de uma categoria que reúne vinhos de elevada raridade, onde o tempo em casco é determinante na construção do perfil.


Rubens Menin e a sua mulher, Beatriz.



No caso do vinho agora apresentado, a base ultrapassa esse enquadramento. O lote resulta de um trabalho desenvolvido ao longo de cinco anos, centrado na identificação e recuperação de vinhos antigos em armazéns da região. Foram selecionados cascos com idades muito avançadas, alguns com mais de século e meio, que serviram de base à composição final. Parte destes vinhos terá origem em vinhas plantadas antes da filoxera, o que reforça a dimensão histórica do conjunto e a singularidade do seu perfil.

A responsabilidade por este Very Very Old Tawny coube aos enólogos Tiago Alves de Sousa e Manuel Saldanha, que conduziram um processo técnico exigente, assente na prova e avaliação individual de cada vinho, na sua recuperação e na definição do lote final: «Trabalhar com vinhos desta idade implica desafios específicos, desde a estabilidade à coerência sensorial, exigindo provas sucessivas e decisões muito precisas na composição. O objetivo passou por encontrar equilíbrio entre concentração, frescura e complexidade, mantendo e respeitando a identidade de cada componente» explica Tiago Alves de Sousa.

O perfil do vinho, aliás, reflecte esse trabalho. No plano aromático, evidencia grande intensidade, com bonitas notas terciárias de frutos secos, madeira antiga, especiarias, caramelo e apontamentos balsâmicos. A componente oxidativa surge integrada, sem excessos. Na boca, apresenta elevada concentração, textura envolvente e uma acidez que assegura equilíbrio e prolonga o final. A persistência é longa e marcada por camadas sucessivas de sabor, revelando a profundidade associada ao envelhecimento prolongado. «É um grande vinho. Este trabalho foi muito complexo e exigente, pela idade e diversidade dos vinhos envolvidos, mas mostra a enorme riqueza que o Douro tem. Alguém trabalhou ao longo de gerações para que hoje pudéssemos provar vinhos como este. O nosso papel foi respeitar essa história e encontrar um equilíbrio que permitisse dar-lhe continuidade», afirmou ainda o enólogo.


A edição é limitada a 200 garrafas de 50 cl, vendidas a 10 mil euros a unidade
Um vinho desenhado pelos enólogos Manuel Saldanha (à esq) e Tiago Alves de Sousa (à dirt)



A edição é muito limitada, com 200 garrafas de 50 cl colocadas no mercado, e um preço na ordem dos 10 mil euros por unidade. O posicionamento dirige-se a um segmento restrito, associado ao coleccionismo e à procura de vinhos raros, onde a proveniência e a idade dos lotes assumem um papel central.

Este lançamento enquadra-se na estratégia da Menin Wine Company, estruturada em torno de vinhos de gama alta e de projectos a longo prazo. Actualmente, o grupo detém cerca de 200 hectares na região, dos quais aproximadamente 150 hectares de vinha, incluindo parcelas de vinhas velhas com mais de um século. A produção distribui-se entre vinhos premium e ultra premium, com abordagens diferenciadas ao nível da seleção de uvas, vinificação e estágio, asseguradas pela mesma equipa de enologia.

No segmento dos Vinhos do Porto, a aposta em categorias de topo acompanha uma tendência mais ampla na região, onde vários produtores têm vindo a explorar vinhos de envelhecimento muito prolongado e edições limitadas. A criação da categoria Very Very Old pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto surge nesse contexto, procurando enquadrar e regular vinhos que não se integravam facilmente nas classificações tradicionais. No caso da Menin, o novo lançamento representa um passo consistente na afirmação do seu projecto no Douro.



Do Betão ao Vinho



Fundador da MRV Engenharia e do Banco Inter, o empresário Rubens Menin construiu uma carreira no sector imobiliário e financeiro no Brasil, onde é hoje uma das figuras mais relevantes. Em 1979, um ano após concluir a formação em engenharia civil, fundou com o primo Mário Lúcio Pinheiro Menin a MRV Engenharia, empresa que esteve na base da sua fortuna. A aposta, clara desde o início, foi a de desenvolver habitação acessível, assente na produção em escala e na eficiência operacional. Num país com um défice habitacional histórico, a MRV cresceu rapidamente e viria a tornar-se a maior construtora residencial da América Latina em número de unidades entregues. A entrada em bolsa, em 2007, consolidou o grupo e abriu caminho à diversificação.

O sucesso na construção civil permitiu-lhe investir noutros sectores estratégicos. Foi um dos fundadores do Banco Inter, um dos primeiros bancos digitais do Brasil, pioneiro num modelo sem balcões físicos e com serviços gratuitos, rompendo com a lógica da banca tradicional. O grupo expandiu-se ainda para áreas como logística, urbanismo, arrendamento residencial e media, com destaque para a criação da CNN Brasil e a aquisição da Rádio Itatiaia.

Apesar de um perfil discreto, ganhou maior projecção pública ao entrar no mundo do futebol. Adepto assumido do Clube Atlético Mineiro, tornou-se um dos principais investidores da SAF do clube, num processo de profissionalização que reflecte ambição desportiva. Sob a sua liderança, foi construído o Arena MRV, símbolo dessa nova fase. Entre as distinções recebidas, destaca-se o título de ‘World Entrepreneur of the Year’, atribuído pela Ernst & Young em 2018, tornando-se o primeiro brasileiro da América do Sul a receber o prémio.

Nos últimos anos, alargou a actividade à Europa, com investimentos no Douro iniciados em 2017. O projecto vitivinícola que desenvolve na região representa uma diversificação num sector marcado por ciclos longos e maior imprevisibilidade, onde o tempo e a consistência são determinantes.

Conhecendo um pouco da sua vida privada percebe-se também a sua ligação ao vinho. Nascido em Belo Horizonte, cresceu numa família de classe média com forte ligação à engenharia (pai, mãe e avô eram engenheiros civis) num ambiente onde a disciplina e o trabalho eram valorizados desde cedo. A infância foi marcada por uma vivência comunitária hoje pouco comum, com vários membros da família a viverem na mesma zona, partilhando o quotidiano entre casas próximas. Rubens, que era o mais novo de quatro irmãos, cresceu num contexto de rigor na gestão dos recursos. Frequentou a escola pública, usou roupa e objectos que circulavam entre familiares e habituou-se a uma vida simples. As refeições assumiam um papel central, momentos de encontro e partilha, muitas vezes alargados à família mais extensa.

O contacto com o vinho surgiu cedo. Influenciado pelas origens italianas do avô, provou vinho ainda em criança, em pequenas quantidades e diluído em água, integrado no contexto familiar. Mais tarde, já na juventude, começou a aprofundar esse interesse, que evoluiu ao longo da vida através de provas, viagens e contacto com diferentes regiões vitivinícolas.

Depois de consolidar o seu percurso empresarial no Brasil, essa relação com o vinho tornou-se mais estruturada. Ao longo das décadas de oitenta e noventa, integrou grupos de prova, frequentou cursos e visitou regiões como Mendoza, Napa Valley, Bordéus, Borgonha ou Toscana, experiências que contribuíram para uma visão mais abrangente do sector.

Portugal surge mais tarde neste percurso. A primeira visita ao Douro aconteceu em 2013, numa viagem informal com amigos. O contacto com a paisagem, a qualidade dos vinhos e o potencial da região revelou-se determinante, a par da identificação de margem de evolução ao nível das infraestruturas e da organização do sector.




A entrada efectiva no Douro concretizou-se em 2017, com a aquisição das primeiras propriedades no Cima Corgo. O investimento inicial foi acompanhado por um trabalho de recuperação de vinhas e reabilitação de património, dando início a um projecto estruturado e de longo prazo. Desde então, o grupo tem vindo a consolidar a sua presença na região, apostando na valorização do terroir, na produção de vinhos de qualidade e no desenvolvimento do Enoturismo.

Casado com Beatriz Menin e pai de três filhos, deixou a direcção executiva em 2014 para se concentrar no conselho de administração, assegurando a transição para a nova geração. Actualmente, a liderança do grupo é partilhada entre o filho, Rafael Menin, e o sobrinho Eduardo Fischer, garantindo continuidade na gestão. Figura hoje entre os homens mais ricos do Brasil.