Crónica

Nunca digas nunca…

Quem me conhece bem – e atenção, vou revelar algo insólito, tendo em conta a minha profissão – sabe que… eu não gosto de cerveja! Neste momento já vos imagino a perguntar ‘como é isto possível?’, mas é mesmo verdade! Enquanto muitos dos meus colegas especialistas de vinho se pelam por uma cerveja depois de longas provas, sobretudo quando está calor, eu continuo fiel ao vinho. Prefiro um branco fresco, elegante, que me descanse o cérebro e sirva simplesmente para lavar o paladar.

Mas, voltando ao tema central, a cerveja… Até sinto alguma repulsa pelo aroma, talvez seja qualquer coisa relacionada com a cevada, não sei explicar, e por isso, durante anos, achei que jamais conseguiria beber cerveja com verdadeiro prazer. A única expceção aconteceu quando o chef Alexandre Silva me deu a provar, no restaurante LOCO, uma cerveja artesanal feita de trigo que, por sinal, era excelente. Convenci-me então de que aquele episódio seria uma raridade irrepetível. Até à semana passada…

Durante o evento ‘Subaquatic Wine Tourism Experience’, em Sines, provei uma cerveja que me surpreendeu profundamente e me fez render à evidência de que nunca devemos generalizar sobre aquilo de que achamos não gostar. Por vezes, basta a experiência certa para desmontar anos de convicções.

E como aconteceu este pequeno milagre? A história começa com Daniel Sperandio, um empresário brasileiro de espírito inquieto e apaixonado por cerveja. Daniel queria produzir uma cerveja ao seu gosto, mas não pretendia criar apenas mais uma cerveja artesanal premium. Queria fazer algo verdadeiramente diferente. Foi então que conheceu Gláucia Puccinelli, mestre cervejeira formada em Ciências das Bebidas e Tecnologia Cervejeira pela Universidade de Weihenstephan, na Alemanha, uma das mais prestigiadas escolas cervejeiras do mundo. Coube a ela desenvolver uma cerveja com enorme potencial de evolução, elaborada com malte de cevada, lúpulo e leveduras alemãs de elevada qualidade. Após a fermentação principal, a cerveja realizou uma segunda fermentação em garrafa com leveduras tradicionalmente utilizadas na produção de Champagne, seguindo o Método Clássico dos grandes espumantes.

Daniel durante a prova da cerveja, com o Sommelier Rodolfo Tristão e o produtor Piero Lugano (ao fundo)
Cumplicidade de dois produtores e amigos



O resultado era promissor, mas Daniel sentia que ainda faltava qualquer coisa capaz de a tornar verdadeiramente única. Foi então que viu uma reportagem sobre Piero Lugano, produtor italiano da Bisson, conhecido por ter revolucionado o mundo do vinho ao criar o Abissi, um espumante que envelhece no fundo do mar, a cerca de 60 metros de profundidade. A ideia era brilhante: aproveitar as condições naturais do oceano (temperatura constante, ausência de luz, elevada pressão e o movimento permanente das correntes) para proporcionar uma evolução diferente da que acontece em adega.

Daniel ficou fascinado. Se aquilo resultava com vinho, porque não com cerveja? Foi desse encontro que nasceu uma colaboração inédita entre Brasil e Itália. A cerveja passou a ser maturada segundo o Método Bisson, desenvolvido por Piero Lugano para os seus espumantes submarinos, dando origem à Ulisse – La Birra degli Abissi, considerada a primeira Brut Beer maturada no fundo do mar.

Em 2018 foram produzidas apenas 700 garrafas Magnum de 1,5 litros. Permaneceram quatro anos a cerca de 60 metros de profundidade, na Baía do Silêncio, em Sestri Levante, no Mar da Ligúria. Depois de regressarem à superfície, seguiram-se mais quatro anos de estágio em adega. Oito anos de evolução antes de chegar ao consumidor. Não conheço nenhuma cerveja que possa contar uma história semelhante.

Tive então o privilégio de provar uma dessas garrafas. A transformação era evidente. Segundo o produtor, a cerveja adquiriu uma cor âmbar mais escura e intensa do que a cerveja em terra (que não provei), desenvolvendo aromas de fruta madura, tâmaras, ameixa seca, notas de tabaco e até ananás maduro. Na boca revelou-se encorpada, elegante e complexa. Com 12% de álcool, revelou profundidade e equilíbrio, mantendo o sabor e o aroma da cevada presente, mas suave e agradável, sem nunca dominar a prova, o que para mim, fez toda a diferença.

A experiência foi realmente inacreditável porque, mal bebi o primeiro gole, apeteceu-me imediatamente beber o resto do copo. Nunca pensei escrever isto sobre uma cerveja!

O lançamento comercial está previsto para outubro e a distribuição será extremamente seletiva. Nesta fase, a Ulisse encontra-se apenas na Cantina Bisson, em Sestri Levante, estando previsto um preço a rondar os 120 euros por garrafa Magnum. É uma cerveja rara, exclusiva e assumidamente pensada para um público muito específico.

No fundo, esta experiência fez-me recordar uma lição importante, a de que nunca devemos fechar a porta ao inesperado. Os nossos preconceitos, mesmo quando parecem inabaláveis, podem cair por terra ao primeiro gole. E talvez seja precisamente isso que torna o mundo da gastronomia e das bebidas tão fascinante. A curiosidade continua a ser o melhor ingrediente para quem nunca quer deixar de aprender.