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A nova adega de Roberto Henríquez em Bío-Bío

Na comuna de Santa Juana, no sector de Tanahuillín, região Bío-Bío, está a nascer a nova adega de Roberto Henríquez um dos enólogos que tem contribuído para dar visibilidade internacional aos vinhos naturais do sul do Chile. Ainda em construção, o projecto deverá concentrar uma parte importante da sua produção, assente sobretudo em vinhas antigas, castas históricas e métodos de vinificação de baixa intervenção.

Quando visitámos Roberto Henríquez, a nova adega em Santa Juana ainda não estava terminada. A obra continua, há espaços por concluir e muito trabalho pela frente, mas já se percebe o que pretende fazer neste lugar. Foi neste cenário ainda provisório que a sua equipa nos recebeu e onde almoçámos, entre conversas sobre vinhas, vinhos e o percurso que o levou a investir neste seu novo projecto no sul do Chile.

Engenheiro agrónomo formado pela Universidad de Concepción, e enólogo, Roberto Henríquez nasceu e cresceu nesta região e teve contacto com a vinha desde jovem, através de familiares ligados à viticultura. O seu percurso profissional começou, contudo, longe da pequena escala que tem hoje o seu projecto. No Chile trabalhou em grandes empresas vitivinícolas, entre as quais a Viña Undurraga, a Viña Santa Ema e a Viña Santa Rita, onde trabalhou nesta última com a enóloga Cecilia Torres, uma das mulheres pioneiras da enologia chilena. Seguiram-se experiências no estrangeiro, com vindimas no Canadá e na África do Sul, mas seria em França que encontraria uma forma diferente de olhar para a produção de vinho.

No Vale do Loire trabalhou com René e Agnès Mosse, produtores associados ao movimento dos vinhos naturais. O contacto com uma estrutura familiar, uma viticultura menos intervencionista e outra relação com a vinha acabaria por influenciar o caminho que decidiu seguir. De regresso ao Chile, trabalhou também com Louis-Antoine Luyt, francês radicado no país e um dos nomes ligados à recuperação do pipeño, vinho tradicional e popular das zonas rurais do sul do Chile, e à valorização da casta País.

Em 2015, Roberto Henríquez (na foto de entrada, com a sua equipa, e em baixo, com a mulher) iniciou o projecto em nome próprio. Começou com uma produção de cerca de 400 garrafas, que foi crescendo à medida que os seus vinhos encontraram mercado dentro e, sobretudo, fora do Chile. A base do seu trabalho está no património vitícola do sul chileno, trabalhando vinhas antigas da região Bío-Bío e Itata, muitas delas de sequeiro e em pé-franco, centenárias. A País ocupa um lugar central, mas há também variedades brancas antigas como Semillón, Moscatel de Alejandría, Chasselas e Torontel. E há experiências com outras castas, entre elas a portuguesa Trincadeira, que se está a dar bem naquele terroir.



A adega em construção é sustentável
Espaço para eventos
O edifício está preparado para recber grupos exclusivos
Ornamentos esculpidos à mão, em madeira
A oferta inclui alojamento total dos quartos
A intervenção na adega é reduzida



Entre as parcelas que trabalha encontra-se a Viña 77, em Santa Juana, com País muito antiga, plantada em solos de areias negras de origem vulcânica. Em Carrizal, na zona de Nacimiento e na Cordilheira de Nahuelbuta, trabalha igualmente País velha, a cerca de 500 metros de altitude, em solos graníticos e numa paisagem marcada pela floresta nativa. Destas vinhas nascem referências como Rivera del Notro, País Franco, Santa Cruz de Coya, Molino del Ciego, Tierra de Pumas e Cerro La Trinchera. Neste último, a País provém de uma vinha com cerca de 250 anos, em pé-franco. A fermentação é feita com as películas em antigos recipientes de raulí (árvore nativa do Chile e da Argentina) seguindo-se o estágio em diferentes materiais, como barricas usadas, inox e ânforas de barro.

A intervenção na adega é reduzida. As fermentações são espontâneas, com leveduras indígenas, e Henríquez recupera recipientes e práticas tradicionalmente associados ao pipeño. A madeira de raulí, utilizada durante gerações na construção das grandes pipas onde estes vinhos eram fermentados e guardados, voltou assim a fazer parte do processo.

O projecto cresceu entretanto muito além das primeiras centenas de garrafas. Os vinhos de Roberto Henríquez chegaram a vários mercados internacionais e o seu nome tornou-se uma referência entre os produtores chilenos ligados aos vinhos naturais. A nova adega acompanha esse crescimento e a sua construção foi pensada não apenas para a produção de vinho, mas também para receber visitantes.


A base do seu trabalho está no património vitícola do sul chileno, trabalhando vinhas antigas
A arquitectura é uma das primeiras coisas que chama a atenção



A arquitectura é uma das primeiras coisas que chama a atenção. Na construção foram utilizados seixos e areia do rio, materiais que aproximam o edifício da paisagem envolvente. Os tectos abobadados fazem lembrar antigas construções romanas e pequenas aberturas deixam entrar focos de luz natural. A madeira tem igualmente uma presença importante, com peças onde diferentes variedades de uva foram esculpidas à mão. Mesmo com a obra ainda a decorrer, percebe-se o cuidado colocado nos materiais e nos detalhes.

O projecto inclui alojamento destinado a receber quem quiser ficar alguns dias e conhecer de perto o trabalho de Henríquez. Tem apenas cinco espaçosos quartos (dois em baixo e um no andar de cima, em open space) e uma grande cozinha aberta para uma sala, pensada para refeições e encontros em torno do vinho. A ideia é receber pequenos grupos exclusivos, privados ou profissionais, que aluguem o alojamento por inteiro e onde se poderão realizar também eventos.

Quando lá estive, ainda havia pó de obra, materiais espalhados e espaços por acabar, mas já havia o suficiente para perceber que, naquele lugar ainda em construção, começa a ganhar forma uma nova etapa no percurso de Roberto Henríquez na região Bío-Bío. Vamos estar atentos.




Os vinhos de Roberto Henriquez

A gama de Roberto Henríquez revela bem a diversidade do seu trabalho e, sobretudo, as diferentes interpretações que consegue retirar das velhas vinhas do sul do Chile. O Tierra de Pumas, por exemplo, é uma expressão mais intensa, ampla e exuberante da casta País. Nasce de vinhas com mais de 200 anos, em Santa Juana, plantadas em solos onde predominam o granito e o quartzo, com alguma argila e componentes sedimentares nas zonas mais baixas da parcela. Já o País Franco, também proveniente de cepas com cerca de 200 anos, apresenta um perfil mais puro, direto e delicado. As vinhas encontram-se junto ao rio Bío-Bío, sobre areias negras de origem vulcânica. Dois vinhos da mesma casta e de vinhas de idade semelhante, mas com personalidades distintas, que mostram bem a influência do lugar na expressão da País.

O Cerro La Trinchera acrescenta ainda uma terceira interpretação da País. Nasce de uma vinha muito antiga, em solo granítico, de sequeiro e pé-franco, na zona de Carrizal, na Cordilheira de Nahuelbuta. Aqui, Henríquez encontra uma expressão mais delicada da casta, trabalhada também de forma singular. Fermenta com as películas em lagares de raulí (madeira nativa do sul do Chile, tradicionalmente utilizada em recipientes de vinificação) e passa depois por barrica usada, inox e tinajas (grandes recipientes de barro, de tradição ancestral, utilizados para fermentar ou estagiar vinho).

Depois, há ainda a destacar experiências ainda mais inesperadas. O Molino del Ciego, por exemplo, é um Sémillon proveniente de uma vinha com cerca de 100 anos, fermentado espontaneamente, com 26 dias de contacto com as películas e 17 meses em barricas usadas. É talvez um dos vinhos que mais apetece descobrir precisamente por isso. Pega numa velha casta branca, durante muito tempo pouco valorizada no Chile, e trabalha-a como um vinho de maceração pelicular, aproximando-a do universo dos orange wines. No conjunto, estes vinhos mostram como Roberto Henríquez parte de um património vitícola antigo para criar expressões distintas, respeitando a identidade de cada vinha, de cada casta e de cada lugar.