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Duas estadias especiais na região Bío-Bío

Percorrer a região vitivinícola do Bío-Bío, no sul do Chile, implica viajar entre pequenas localidades para descobrir vinhas antigas e produtores que começam agora a desenvolver o Enoturismo. A oferta hoteleira acompanha essa diversidade. O Gran Wolf, instalado numa propriedade com mais de um século de história equestre, e o Hotel Salto del Laja, situado entre quatro quedas de água, são duas opções para quem pretende conhecer a região.

A região Bío-Bío é uma região onde as distâncias contam. As vinhas encontram-se dispersas e muitos produtores trabalham em pequenas adegas, algumas ainda sem estruturas de apoio ao turismo. Ao contrário de outras regiões vitivinícolas chilenas, onde já existem hotéis integrados em propriedades produtoras, por aqui a oferta de alojamento ligada ao vinho está ainda numa fase inicial. Escolher onde ficar antecipadamente é fundamental para organizar bem as visitas.

Entre as opções encontram-se dois hotéis com propostas distintas. O Gran Wolf, em Coihue, na comuna de Negrete, aposta numa hotelaria contemporânea, com serviço e restauração de nível elevado. O Hotel Salto del Laja, uma unidade familiar com várias décadas de história, oferece uma estadia mais simples e acessível, numa localização onde o foco são as conhecidas cascatas do rio Laja.



Gran Wolf, uma estadia de nível mundial

A cerca de 20 minutos de Los Ángeles, o Hotel Gran Wolf (na foto de entrada) integra o Haras Santa Amelia, uma propriedade de aproximadamente 50 hectares com uma longa história ligada à criação de cavalos puro-sangue. Inaugurado recentemente, dispõe de 24 quartos e seis bungalows, num espaço onde os edifícios históricos convivem com construções contemporâneas. A arquitectura segue uma linha sóbria. Nos interiores, os materiais naturais acompanham a amplitude dos espaços. O conforto dos quartos coloca esta unidade num segmento ainda pouco representado na hotelaria da região, uma aposta que se estende à restauração e ao serviço.

O Haras Santa Amelia tem mais de um século de tradição equestre. Foi nesta propriedade que nasceu, em 1987, Wolf, um dos cavalos mais conhecidos da hípica chilena, vencedor da Triple Corona Nacional em 1991. O nome do hotel é uma homenagem a esse cavalo, cuja história continua presente na memória da propriedade.

Actualmente, o Haras pertence a María Paz Jofré Manieu, que tem vindo a diversificar a actividade da propriedade. O sobrinho, Jorge Venturelli, engenheiro comercial de formação, integra a equipa desde 2021 e tem acompanhado o desenvolvimento das áreas da hotelaria, gastronomia, eventos e turismo. A ligação da família a Itália, onde Jorge estudou também gastronomia, está vem visível em algumas das opções de restauração.


A madeira ocupa um lugar importante na decoração do hotel
Mantas e almofadas feitos pelas comunidades Mapuche
Os quartos estão inseridos na paisagem
O mundo equestre serviu de inspiração para o hotel



Uma antiga cavalariça foi também recuperada para instalar a Trattoria Santa Amelia, dedicada à cozinha italiana. A antiga casa dos trabalhadores, construída em 1887, foi transformada numa taberna, enquanto a Casa Museu, datada de 1907, conserva fotografias, troféus e outros objectos ligados à criação de cavalos. A visita a esta casa permite conhecer uma parte importante da história do Haras. Os documentos e as fotografias recordam os animais criados na propriedade e os prémios conquistados ao longo de várias gerações. Esta herança está também presente na decoração do hotel, embora de forma discreta.

A madeira ocupa um lugar importante nos interiores, seguindo uma tradição de construção muito presente no sul do Chile. Mantas e almofadas produzidas com têxteis de comunidades Mapuche estabelecem uma ligação à cultura indígena da região. A unidade tem um ambiente tranquilo, onde a recuperação do património existente foi acompanhada pela criação de espaços de alojamento e restauração com uma linguagem contemporânea.

Embora a criação de cavalos seja o conceito identitário do Haras Santa Amelia, o vinho começa também a entrar na actividade da propriedade. Já foi plantada uma vinha, estando prevista a produção de vinho próprio muito em breve. Entretanto, o hotel tem vindo a desenvolver parcerias com produtores do Bío-Bío, e naturalmente os vinhos da região chegam à mesa e dão origem a iniciativas que permitem conhecê-los melhor. Há provas comentadas e jantares vínicos, além de workshops realizados em diferentes espaços da propriedade. Existe também uma sala destinada a refeições e eventos privados, onde a cozinha e o serviço de vinhos assumem particular importância.


Na sala de jantar da Casa Museu podem realizar-se eventos exclusivos
Os vinhos da região e a gastronomia estão naturalmente ligados



Esta ligação aos produtores locais tem interesse numa região onde o Enoturismo ainda está pouco desenvolvido. Muitas adegas do Bío-Bío são pequenas estruturas familiares, sem alojamento ou restauração, pelo que a colaboração com hotéis pode contribuir para divulgar os vinhos e facilitar o contacto com os visitantes. Obviamente, o Gran Wolf reúne condições para desempenhar esse papel.



Hotel Salto del Laja, quartos com vista para as cascatas

A proposta do Hotel Salto del Laja é bastante diferente. Trata-se de uma unidade familiar de carácter tradicional, com preços mais acessíveis. O principal atractivo é a localização: uma ilha de cerca de 35 hectares, rodeada pelos quatro saltos que formam as cascatas do rio Laja, um dos locais naturais mais conhecidos desta parte do Chile. Muitos dos quartos estão orientados directamente para as quedas de água, permitindo observar as cascatas a partir das janelas e varandas.

A história da propriedade começou em 1895, quando o agrónomo alemão Máximo Puffe Dittmar, então com 22 anos, chegou ao Chile e conheceu os Saltos del Laja. Dois anos mais tarde, depois de regressar à Alemanha para reunir o dinheiro necessário, adquiriu cerca de 1600 hectares à família Larenas, dando origem à Hacienda La Aguada. Ali, Máximo desenvolveu a actividade agrícola e construiu canais para aproveitar a água do rio Laja. Instalou também uma turbina para produzir electricidade, numa época em que a região ainda tinha poucas infra-estruturas.


Hotel Salto del Laja
Recepção do hotel
Todos os quartos têm vista para a cascata
Simplicidade com estilo
Existem quatro quedas de água formadas pelos braços do rio Laja



Depois da sua morte, em 1935, a propriedade permaneceu na família. Em 1950, o filho Enrique Puffe e a mulher, Edith Klapp Wenzel, compraram mais 35 hectares junto às quedas de água para desenvolver um projecto turístico. Cinco anos depois, Enrique mandou construir uma ponte que ligou a margem sul do rio à ilha situada entre as cascatas, permitindo a instalação da hostería e do hotel.

Em 1962, Martin Puffe Klapp, representante da terceira geração e com formação em hotelaria em Heidelberg, na Alemanha, assumiu a gestão com a mulher, Sonia Zlatar Zamora. O hotel começou com 12 quartos e foi sendo ampliado até atingir os actuais 47. O restaurante La Hostería tornou-se entretanto uma paragem habitual para muitos viajantes que percorrem o sul do Chile. A quarta geração da família, representada por Martín Puffe Zlatar, continua actualmente ligada à gestão da propriedade.

O Hotel Salto del Laja mantém o carácter de uma unidade tradicional, com quartos simples e espaços que reflectem as diferentes fases da sua história. A localização, porém, permite uma relação com a paisagem pouco habitual. As quatro quedas de água são formadas por diferentes braços do rio Laja, que contornam a ilha onde se encontra o hotel. A partir da propriedade é possível observar as cascatas de vários ângulos e percorrer caminhos junto ao rio, afastados das zonas mais movimentadas, próximas da estrada principal.


Os passeios pela natureza fazem parte da estadia



A presença constante da água marca toda a estadia. Nos quartos virados para as cascatas, a paisagem pode ser observada directamente da janela, acompanhada pelo som do rio, que se mantém durante o dia e a noite. A propriedade dispõe também de áreas ajardinadas, caminhos pedestres e acesso ao rio. Há piscinas, incluindo uma piscina natural, um campo de golfe rústico de nove buracos e uma área onde vivem veados. Os percursos permitem conhecer diferentes pontos das quedas de água e observar a vegetação que acompanha as margens.

O restaurante mantém uma cozinha tradicional, com pratos simples e uma oferta adequada ao carácter familiar do hotel. A possibilidade de jantar na propriedade, sem necessidade de deslocações, é outra das vantagens para quem utiliza o Salto del Laja como base para percorrer esta parte do Bío-Bío.