Crónica

O título para Nikolai, a sala rendida a Pascaline

Há uma diferença entre conhecer o resultado de um concurso e sair da sala convencida de que ganhou quem melhor esteve em palco. Foi isso que senti na final do concurso de Melhor Escanção do Mundo da Association de la Sommellerie Internationale (ASI), realizada ontem, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

O norueguês Nikolai Haram Svorte conquistou o título na sua primeira participação num mundial. Gosto de me colocar no lugar dos outros e imagino o quanto terá estudado e trabalhado para chegar até aqui. É um óptimo profissional e merece que o seu mérito seja reconhecido, tenho respeito pelo seu percurso e pelo que esta vitória representa na sua vida. Mas, entre os três finalistas, não posso deixar de dizer que neste mundial foi claramente a francesa Pascaline Lepeltier quem mais convenceu. Aliás, pelas reacções da sala, não fui a única a achar o mesmo.

Contextualizando, o concurso reuniu 66 candidatos e regressou a Lisboa pela primeira vez desde 1978, organizado pela ASI em parceria com a Associação dos Escanções de Portugal como anfitriã. À final chegaram Nikolai, Pascaline e o japonês Wataru Iwata. Pela frente tiveram provas cegas de vinhos e bebidas espirituosas, tarefas de serviço, propostas de harmonização e uma carta de vinhos cujos erros era necessário identificar e corrigir. Tudo perante um júri e uma plateia, com o tempo contado e a pressão que se imagina. Houve também um desafio inédito e particularmente interessante, o de reconhecer adegas através de imagens de obras de arte. Nenhum dos três esteve brilhante, e assim ficou o lembrete de que o conhecimento do vinho vai além dos livros e da prova de vinhos; também se constrói a visitar os lugares onde é produzido e a conhecer o que existe para lá da garrafa.

Ninguém é perfeito, e nenhum o foi em palco. Para exemplificar, Nikolai foi o mais tenso, com uma comunicação hesitante, o que de alguma forma o inibiu de ir explicando o decorrer da sua participação de forma mais fluida; Wataru teve dificuldades na decantação e a Pascaline atrapalhou-se na prova. Certamente houve também respostas mais certas do que outras e pormenores técnicos que o júri avaliou com elementos de que o público não dispõe. Ainda assim, aos olhos de quem assistiu, Pascaline revelou ser a mais preparada no conjunto da prestação. Comunicou melhor do que os outros finalistas e soube conduzir as tarefas assertivamente, sem nunca perder o foco e a rapidez na execução das tarefas.

É aqui que o resultado me parece injusto. Um escanção precisa de dominar o vinho e saber servi-lo, mas a segurança no conjunto, também conta? Quanto pesa a segurança, a capacidade emocional de comunicar na avaliação? E o que explica que a decisão do júri tenha ficado tão longe da impressão com que saímos todos da sala?

Não conhecer a grelha completa de avaliação impede-me de defender Pascaline ainda mais, e obviamente não é a seriedade da organização que está em causa (tenho, aliás, anos de amizade com alguns deles), mas não posso deixar de dizer com absoluta convicção que Pascaline foi superior. Talvez por isso, dos três mundiais a que assisti, este foi aquele em que senti menos euforia do público no momento da vitória, a sala esperara ouvir outro nome.

Pascaline ficou surpreendida, e o próprio Nikolai também. As atenções concentraram-se de imediato no vencedor e quase não houve espaço para reconhecer o segundo lugar. Elegante, Pascaline ergueu o copo ao colega e festejou bebendo um gole de vinho que a meu ver deveria ser em sua própria homenagem.

Apesar deste lamento, esta edição em Lisboa já foi especial por várias razões. A principal foi ter tido, pela primeira vez, cinco mulheres a chegar às meias-finais do mundial. Já se sabe que o profissionalismo não tem género e esta profissão exige sacrifícios a todos, mas isso não apaga as dificuldades acrescidas que muitas mulheres continuam a enfrentar no mundo do vinho. E, obviamente, não queria que Pascaline ganhasse por ser mulher, mas sim porque para muitos naquela sala, no conjunto, ela foi mesmo a melhor. Mas vê-la tornar-se a primeira mulher a conquistar o título teria dado um significado especial à vitória. Espero que não desista de tentar!