Como ir à casa da avó
Há visitas a produtores que ajudam a perceber uma região para lá dos vinhos. A Viña Quinta Rosa, em Yumbel, no Chile, é provavelmente uma das que melhor representa o lado mais rural do Bío-Bío.
Chegar a esta propriedade é um pouco como visitar a casa da avó ou daquela tia mais velha que nos recebe sempre de braços abertos, põe a mesa e faz questão de que ninguém saia sem comer ou beber.
Foi exactamente essa a sensação que tive. Tudo é muito caseiro e informal, com uma simplicidade que está longe daquilo que hoje encontramos em muitos projectos de enoturismo. Para quem aprecia este género de visitas, tem graça precisamente por isso. Falta ainda profissionalizar muita coisa, mas a simpatia e a generosidade com que fomos acolhidos fizeram-nos esquecer rapidamente essa parte. Saí de lá com a sensação de ter sido recebida numa casa e não numa empresa de vinhos.
E, na verdade, é mesmo em casa que Arturo e Magdalena, os proprietários, recebem quem os visita. Quando há jantares reservados, alguns são servidos na própria sala de jantar da família, à mesa onde habitualmente se sentam. Não existe uma grande estrutura montada para o enoturismo, nem se procura criar a aparência de que existe. A proximidade faz parte da experiência e ajuda a perceber quem está por detrás da Viña Quinta Rosa.
A história da família ligada ao vinho recua aos anos 20 do século passado, quando Carlos Efraín, avô de Arturo Escobar, já produzia vinho. Arturo representa actualmente a terceira geração e conduz a propriedade juntamente com a sua mulher, Magdalena Jara. Durante décadas, as uvas e o vinho tiveram sobretudo como destino a venda a granel, uma realidade comum entre os pequenos viticultores desta zona do Chile. Em 2019, a família decidiu começar a engarrafar os próprios vinhos e a construir a marca Quinta Rosa.







A casta País tem naturalmente um lugar importante. Segundo a família, existem na propriedade plantas em pé-franco com idades compreendidas entre os 300 e os 350 anos, idades que revelam a antiguidade do património vitícola que sobrevive nesta parte de Yumbel.
Durante muito tempo, estas velhas vinhas tiveram pouco valor comercial mas hoje começam a ser um dos argumentos que levam profissionais e apreciadores de vinho até esta região. A abertura ao enoturismo aconteceu sobretudo depois da pandemia, e há uma vertente social e de inclusão no trabalho desenvolvido pela Viña Quinta Rosa que diz bastante sobre os seus proprietários. A família recebe visitantes comuns, mas também grupos escolares e crianças com necessidades especiais, promovendo actividades ligadas à vinha e às tradições locais, incluindo as vindimas e a preparação da chicha, bebida tradicional chilena obtida também a partir da fermentação da uva. É este lado humano de Arturo e Magdalena que permite com que as pessoas cheguem e entrem na vida da família durante algumas horas.



Na prova tive oportunidade de conhecer três vinhos dos produtores. O Rosé, uma das marcas da casa, elaborado a partir da casta País e com um perfil ligeiramente doce; o Cinsault, mais fresco e marcado pela fruta; e o Los Mártires, de perfil mais estruturado. No conjunto, são vinhos bem feitos, embora com alguma rusticidade. Vinhos artesanais que refletem a escala familiar do projeto e a tradição vitivinícola de Yumbel.
Esta ruralidade já lhe trouxe algum reconhecimento. Em 2023, a Viña Quinta Rosa foi distinguida como ‘Melhor Viña Emergente da Região do Bío-Bío’ nos Premios Enoturismo Chile e, nos anos seguintes, voltou a ser reconhecida regionalmente, incluindo, em 2025, na categoria Enoturismo à Escala Humana. Uma designação que, neste caso, descreve bastante bem aquilo que encontramos.
A Viña Quinta Rosa tem ainda um caminho a percorrer na profissionalização da sua oferta, sem que isso signifique perder o ambiente familiar que tanto a caracteriza. Há aspectos da recepção, do serviço e da própria organização que podem evoluir e tornar a visita mais consistente. A parte mais difícil, porém, já existe… a simpatia, a generosidade e uma vontade genuína de receber bem. O resto virá com o tempo.