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Bío-Bío, o Chile que ainda não conhecemos

Quando pensamos no vinho chileno, pensamos quase sempre nos grandes vales da zona central que construíram grande parte da reputação internacional do país. No entanto, mais a sul, há uma região que começa a chamar cada vez mais a atenção e que mostra um Chile bastante diferente daquele que estamos habituados a encontrar.

Durante muitos anos, a imagem internacional do vinho chileno ficou sobretudo associada à zona central, onde continua concentrada grande parte da vinha. As regiões administrativas de O’Higgins e Maule representam, em conjunto, mais de dois terços da superfície vitícola chilena, o que pode explicar esta situação. É em O’Higgins que se encontram, por exemplo, os conhecidos vales de Cachapoal e Colchagua, dois nomes há muito associados ao vinho chileno, enquanto Maule continua a ser uma das grandes regiões produtoras do país.

Bío-Bío, bem mais a sul, ainda não tem a mesma notoriedade das regiões vitivinícolas do centro do Chile, mas começa a despertar atenção num momento em que produtores e consumidores olham com maior interesse para zonas de clima fresco, vinhas antigas e castas que durante décadas permaneceram em segundo plano.

E não, apesar de se chamar Bío-Bío, o nome não vem de agricultura biológica. Vem do rio Bío-Bío, um dos maiores e historicamente mais importantes do Chile, que nasce nos Andes e percorre cerca de 380 quilómetros até chegar ao Pacífico, junto a Concepción. O nome tem origem indígena e é anterior à chegada dos espanhóis, embora não exista consenso sobre o seu significado exacto. Sabe-se, sim, que o rio teve um papel determinante na história deste território. Durante o período colonial, tornou-se uma fronteira entre as áreas controladas pelos espanhóis e o território Mapuche, que resistiu durante séculos ao seu avanço para sul. Durante muito tempo, atravessar o Bío-Bío significava, na prática, entrar noutra parte do Chile. A região acabaria por herdar o nome desse rio que continua a marcar a sua identidade.

Bio-bio, uma região vitivinícola a descobrir a sul do Chile
Povo Mapuche, que habitou a região Bio-Bio
O nome da região vem do rio Bio-bio, que separava o território espanhol e Mapuche



Estamos numa região bastante mais fresca e húmida do que os vales do Chile central, com precipitações que podem rondar os 1100 milímetros anuais e uma presença frequente do vento. Os ciclos vegetativos são mais longos e as uvas amadurecem mais lentamente, condições que favorecem a preservação da acidez e permitem chegar à vindima sem níveis excessivos de açúcar. Estar tão a sul tem também os seus riscos. As geadas de Primavera são uma preocupação e, em alguns anos, podem provocar perdas significativas, como já aconteceu várias vezes.

Entre as castas plantadas encontram-se a Pinot Noir, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling, que se adaptaram bem a estas condições. Nos vinhos de castas brancas, a acidez e a fruta menos madura são características frequentes; enquanto a tinta Pinot Noir dá  origem a vinhos menos extraídos, com fruta vermelha, frescura e álcool contido. Naturalmente, os perfis variam consoante os solos, a localização das vinhas e as opções de cada produtor.

Mas a região Bío-Bío conserva também castas ligadas à história da viticultura do sul chileno, como a País, a Moscatel de Alejandría e a Cinsault. País e Moscatel têm, contudo, uma presença histórica particularmente importante no vizinho Vale do Itata, onde existe uma maior concentração de vinhas antigas. Durante muito tempo destinadas sobretudo a vinhos simples e de consumo local, estas castas têm vindo a ser recuperadas e trabalhadas com outra atenção, tanto na vinha como na adega.

O Chile escapou à Filoxera, e na região há muitos produtores a trabalhar com vinhas centenárias em pé-franco



Há ainda uma particularidade que atravessa toda a viticultura chilena e que ganha especial interesse quando encontramos vinhas antigas. O Chile escapou à filoxera, a praga que devastou grande parte da vinha europeia no final do século XIX. O isolamento geográfico do Chile, protegido por grandes barreiras naturais (a Cordilheira dos Andes a leste, o oceano Pacífico a oeste, o deserto de Atacama a norte e as regiões austrais e geladas da Patagónia a sul) contribuiu para preservar o território de muitas pragas e doenças, impedindo assim a entrada do insecto. Por isso, uma parte significativa das vinhas chilenas continua plantada em pé-franco, sem necessidade de enxertia sobre porta-enxertos americanos, uma realidade hoje pouco comum no mundo vitivinícola.

Na região Bío-Bío, este património convive com formas diferentes de fazer vinho. Entre os produtores encontramos alguns a trabalhar com menor intervenção na adega, fermentações espontâneas e outras práticas próximas do movimento dos vinhos naturais, acompanhando uma tendência que tem ganho espaço em vários mercados. Não é, evidentemente, o caminho de todos, nem seria correcto reduzir a região a esse estilo, mas é uma das principais correntes que hoje encontramos por ali.

Há também uma vontade de dar maior visibilidade ao Bío-Bío, aos seus vinhos e ao enoturismo. Durante muito tempo, o peso das grandes regiões do centro do Chile deixou estes territórios do sul fora das atenções internacionais. Isso começa agora a mudar, com produtores a mostrarem os seus vinhos noutros mercados, a comunicarem melhor a região com argumentos interessantes e também a preparar-se para receber visitantes.

Durante a minha viagem pelo Bío-Bío encontrei diferentes estilos, castas, vinhas e formas de trabalhar que merecem ser conhecidos com maior detalhe e aos quais voltarei em próximos artigos. Por agora, fica o retrato de um território que começa a conquistar o seu espaço no mapa do vinho chileno e que ainda tem muito para revelar.