Crónica

Um Manifesto branco para começar o ano

Um BOM ANO, começa com um vinho que nos obriga a parar. E o meu começou com a prova do Código Manifesto Branco 2022, assinado por Tiago Macena, um dos nomes que melhor representa o rigor do vinho português, e um orgulho nacional, especialmente no que toca ao tema do exigente universo dos Masters of Wine.

Provado a partir da garrafa 318 de uma produção inferior a mil unidades, este branco revelou-se, desde o primeiro gole, um vinho de substância, feito com identidade e tempo. Nasce no Dão, na vinha de Girabolhos, parcela do Torreão, e essa origem sente-se de forma imediata no copo. O aroma é preciso e seguro, com notas vegetais e fruta de polpa branca bem definida, envolvidas por uma tosta fumada subtil e perfeitamente integrada. Surgem depois apontamentos de lima e a mineralidade clássica da região, mais sugerida do que imposta.

Na boca, o vinho confirma o que o nariz anuncia. Texturado, subtil, cremoso sem nunca ser pesado, mostrou-se amplo e com presença, desenhado com rigor. A acidez é vertical e tensa, dá-lhe nervo, equilíbrio e, sobretudo, longevidade. É um vinho jovem, mas já com alguma complexidade e profundidade, algo que, enquanto apreciadora assumida dos grandes brancos do Dão com idade, não posso deixar de sublinhar.

Tecnicamente, nada aqui foi deixado ao acaso. A prensagem direta de cacho inteiro, a fermentação iniciada em inox e concluída em barricas de 500 litros, o uso contido e criterioso de carvalho húngaro e francês e o longo estágio sobre borras finas, sem bâtonnage, ajudam a explicar a serenidade e o recorte do conjunto. Trata-se de um vinho feito sem pressas, pensado para o presente, mas claramente desenhado para atravessar o tempo.

Há vinhos que cumprem, e outros que nos enchem a medida certa. Este foi um deles. Uma pequena produção, uma grande afirmação. Que 2026 nos traga mais vinhos assim, com grande qualidade e a identidade vincada de cada região.