Crónica

Um dia que faz sentido

Ontem, 31 de julho, assinalou-se pela primeira vez o Dia Nacional da Vinha e do Vinho. A data foi escolhida para coincidir com os 40 anos do Instituto da Vinha e do Vinho e parece-me uma iniciativa do Governo particularmente oportuna. O sector atravessa um período difícil, marcado pela quebra do consumo, pela crescente pressão sobre o vinho e pela necessidade de encontrar novas formas de chegar aos consumidores.

Criar um dia dedicado à vinha e ao vinho é reconhecer a importância de um sector que ajudou a construir o país. A vinha desenhou paisagens, fixou populações, criou riqueza e moldou a identidade de muitas regiões. Poucas actividades têm uma ligação tão profunda à nossa história, à gastronomia, ao turismo e à cultura. Falar de vinho é, por isso, falar de um património que atravessa gerações, sustenta milhares de famílias e continua a projetar Portugal no mundo.

Gostei também da forma como o Instituto da Vinha e do Vinho assinalou esta primeira edição. Em vez de um programa feito apenas de discursos, trouxe o vinho para junto da cultura. A música surgiu entre os convidados de forma espontânea através de vários cantores líricos que alegraram o ambiente, e os livros e as palavras de vários escritores lembraram a presença do vinho na literatura. As aguarelas de Alfredo Roque Gameiro e a obra de Rafael Bordallo Pinheiro evocaram a paisagem, a mesa e o quotidiano. A gastronomia e os vinhos recordaram várias regiões, e houve ainda espaço para a inovação, com a apresentação dos vinhos envelhecidos no mar, um projeto que começa igualmente a despertar o interesse da comunidade científica.

A mensagem passou. O vinho nunca viveu sozinho, sempre caminhou ao lado da literatura, da arte, da gastronomia, da música, da paisagem e da forma de viver dos portugueses. Separá-lo desse universo seria retirar-lhe uma parte importante da sua identidade.

A comunicação do vinho terá de seguir este caminho. Continuaremos a falar de castas, de terroirs, de medalhas e de notas de prova, mas só isso não basta. As pessoas procuram histórias, experiências e ligações aos territórios, procuram compreender quem está por detrás de uma garrafa e o contexto em que ela nasce. O vinho continuará a fazer-se na vinha,  a diferença passará a fazer-se na forma como o damos a conhecer.