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Garzón, uma adega do mundo

Em 2008, o empresário argentino Alejandro Bulgheroni decidiu investir em viticultura nas colinas de Pueblo Garzón, em Maldonado, Uruguai. Na época, poucos imaginavam o impacto daquela escolha. Em pouco mais de uma década, o projeto evoluiu de um terreno multifuncional para uma das adegas mais premiadas do mundo, nos vinhos e no enoturismo.

Inserida numa propriedade de cerca de 2000 hectares, a Bodega Garzón encontra-se na fronteira entre Maldonado e Rocha, a apenas 20 km do oceano Atlântico. Apesar de ser relativamente recente, o projeto impressiona. Quem nos recebeu foi Luis Richard, sommelier e Food & Beverage Manager do restaurante, que nos conduziu pelas vinhas, pela adega e nos enquadrou na história da Garzón.

Até 2007, a região vivia essencialmente da silvicultura, criação de gado, oliveiras e produção de azeite. A vinha veio depois, com o empresário argentino Alejandro Bulgheroni a investir na plantação de vinhas, a partir de 2008. Quando chegou a Pueblo Garzón com a mulher, Bettina, procurava mais do que um novo investimento. Queria um projecto de vida. Nas colinas graníticas de Maldonado encontrou tranquilidade, paisagem e a sensação de estar perante um território com potencial para construir um legado familiar. Apesar de ser argentino, e experiente no sector da agroindústria, não optou por Mendoza, onde a casta Malbec e os vinhos premium já tinham tradição consolidada e forte concorrência. Preferiu uma região ainda pouco explorada para vinhos de alta gama. Os solos graníticos, a altitude moderada e a influência atlântica ofereciam condições para produzir vinhos mais frescos e diferenciadores. Em Maldonado havia espaço para inovar e criar uma identidade própria, sem o peso da tradição. Somava-se a isso a estabilidade e o ritmo de vida do Uruguai, factores decisivos para um projecto pensado a longo prazo.

Assim, o primeiro passo para desenvolver o projecto foi convidar o consultor internacional italiano Alberto Antonini para analisar o terreno e a viabilidade que teria o cultivo das uvas. Formado na Universidade de Florença, e com experiência internacional (e co-proprietário da adega argentina Alto Las Hormigas), Antonini confirmou a Bulgheroni que o solo e a biodiversidade da região tinham um enorme potencial. Foi assim que o empresário se aventurou a plantar 200 hectares de vinhas de imediato, quando o plano inicial previa apenas alguns hectares experimentais. E por isso é que, embora na viragem do milénio já existissem algumas vinhas plantadas em Maldonado, como as da adega Alto de la Ballena, foi a entrada em força da Bodega Garzón que marcou um ponto de viragem na região. O volume de investimento e a escala do projeto, aliados à ambição internacional, deram nova visibilidade ao território que se tornou nas duas décadas seguintes num dos polos mais dinâmicos da viticultura uruguaia. Hoje, Maldonado conta com mais de 400 hectares de vinha plantada e várias adegas a produzir vinhos de qualidade reconhecida, consolidando-se no mapa do vinho sul-americano.

Somos recebidos por Luís Richard (em baixo) sommelier e gerente do restaurante da Bodega Garzón
O Terroir de Maldonado oferece excelentes condições para a produção de vinhos (em baixo)
A adega pertence ao empresário argentino Alejandro Bulgheroni



O plano de plantação das vinhas da Garzón foi bastante detalhado. A Tannat seria a protagonista, acompanhada da Albariño, devido ao clima e solo semelhantes aos da Galiza, na Espanha. Entre brancas e tintas, outras variedades incluídas foram a Marselan, Cabernet Franc, Merlot, Sauvignon Blanc, Petit Verdot, Caladoc, Pinot Noir, Viognier, Pinot Gris, Grenache, Cinsault e Mourvèdre, estudadas em função do solo, inclinação e orientação solar. Para as tintas, priorizaram encostas norte ou noroeste; para as brancas, sul e sudeste, garantindo a melhor expressão possível para cada casta.

Com o tempo, alguns ajustes foram necessários. A Petit Manseng, inicialmente destinada a vinhos doces, teve a sua área reduzida; a Pinot Gris, que não prosperou em encostas muito expostas, foi substituída por Cabernet Sauvignon; e Grenache, Cinsault e Mourvèdre foram introduzidas para criar vinhos ao estilo Bandol, na Provença, França.

A equipe técnica consolidou-se com Germán Bruzzone, enólogo formado em Maldonado, na Escola Superior de Enologia Tomás Berreta e sommelier certificado. Desde 2009, trabalha ao lado de Antonini, formando uma dupla que garante a consistência e qualidade dos vinhos. Bruzzone estudou cuidadosamente a orientação solar, a topografia ondulada do solo e a microparcelaridade, identificando as melhores zonas e refinando a produção ao longo dos anos. A equipe acompanha constantemente as vinhas e a fermentação, garantindo que cada lote revele com precisão o terroir da propriedade.

A adega, projetada pelo atelier Bórmida y Yanzón, de Mendoza, ocupa 19.050 m² e foi inaugurada oficialmente em 2016. É, segundo afirmam, a primeira do mundo a obter certificação LEED em todas as operações, destacando-se em sustentabilidade, eficiência energética e inovação tecnológica. O projeto aproveita a gravidade no fluxo dos vinhos, reduzindo energia, preservando a integridade das uvas e otimizando cada etapa da vinificação. As fermentações usam tanques de aço inoxidável e betão sem epóxi, incluindo tulipas de betão importadas da Itália, enquanto o estágio de vinhos premium ocorre em tonéis de carvalho francês de 2500 a 5000 litros, mantendo o caráter da fruta sem sobrepor aromas de madeira.

Projetada pelo atelier Bórmida y Yanzón, de Mendoza, ocupa 19.050 m²
A primeira produção surgiu em 2010
A produção é focada na qualidade
A Garzón é reconhecida internacionalmente com diversos prémios e distinções
Hoje, a adega produz diversos estilos de vinho



A primeira produção surgiu em 2010, 3000 litros de Viognier, 5000 de Sauvignon Blanc e 5000 de Tannat, comercializados localmente. Quando as vinhas atingiram os sete anos, identificaram-se as parcelas de alta qualidade, dando origem aos vinhos Single Vineyard e, posteriormente, ao Balasto, lote premium com robustez e elegância. Este vinho figura hoje entre os poucos sul-americanos distribuídos no mercado histórico de vinhos em França, o Place de Bordeaux.

Hoje, a Bodega Garzón produz uma ampla gama de vinhos; tintos, brancos, rosés e espumantes. A Tannat e a Albariño são as estrelas, mas a diversidade de castas permite explorar estilos variados e cortes complexos, revelando fielmente o terroir. A gestão comercial é coordenada pelo enólogo chileno Christian Wylie, e a adega tornou-se o maior exportador de vinhos de alta qualidade do Uruguai.

O reconhecimento internacional inclui prémios como ‘New World Winery of the Year’ (Wine Enthusiast, 2018), segundo lugar no ranking World’s Best Vineyards (2019 e 2020), e a presença constante nos Top 100 das principais publicações de vinhos do mundo. Estes prémios reflectem a qualidade dos vinhos, mas também a experiência oferecida aos visitantes, completa e cuidadosamente planeada.

O restaurante da Bodega Garzón, com capacidade para 120 pessoas, dispõe de amplos terraços e áreas de fogos, oferecendo vistas panorâmicas sobre as vinhas. Sob a direção do chef argentino Francis Mallmann (Consultor), a cozinha está ao leme de do Chef Nicolás Acosta, privilegiando os produtos locais e sazonais, e utilizando métodos tradicionais como o forno de barro, grelhador e fogões a lenha. O menu harmoniza pratos contemporâneos e tradicionais com os vinhos da casa e azeites produzidos na propriedade, reforçando a ligação entre a gastronomia e o terroir.

Francis Mallmann é o Chef Consultor e Nicolás Acosta o residente
A cozinha privilegia os produtos locais e sazonais
O menu harmoniza pratos contemporâneos e tradicionais com os vinhos da casa e azeites
São utilizados métodos tradicionais como o forno de barro, grelhador e fogões a lenha
Os doces não faltam na riqueza do menu
As harmonizações gastronómicas são um dos ex-libris da casa



Além de degustações e visitas guiadas, a adega oferece ainda experiências de enoturismo completas. Caminhadas pelas vinhas, aulas de cozinha e tours especializados. Como explica Luis Richard, cada visita é pensada para que o visitante compreenda o vinho desde a vinha até ao copo, fazendo com que a experiência seja inesquecível.

 fluxo de visitantes é constante, e o modelo estruturado da adega demonstra como é possível operar em escala internacional sem perder controle da qualidade. A Bodega Garzón tornou-se, assim, um destino imperdível em Maldonado, inspirando outras adegas a elevar os padrões de produção e turismo, colocando o Uruguai no mapa global do vinho premium.