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Enoturismo em modo circular

Ventozelo Hotel & Quinta aposta na economia circular e no aproveitamento dos recursos da propriedade como parte da sua estratégia de sustentabilidade aplicada ao enoturismo.

A sustentabilidade tornou-se uma palavra recorrente no sector do vinho e do enoturismo, usa-se muito, explica-se nem sempre bem e, em alguns casos, pouco se percebe sobre aquilo que significa na prática. No Ventozelo Hotel & Quinta, propriedade do grupo Granvinhos, há exemplos concretos que ajudam a perceber como esse conceito pode ser aplicado no dia a dia de uma unidade de enoturismo.

Se na componente agrícola e vitivinícola a preocupação com a sustentabilidade já fazia parte do caminho traçado por Ventozelo, através da preservação dos habitats, da biodiversidade e de uma gestão dos recursos pensada a longo prazo, essa lógica está agora cada vez mais presente no enoturismo. O projeto é ainda mais interessante se pensarmos que as boas práticas deixam de estar concentradas não só na vinha mas também entram nos quartos, na cozinha e na própria experiência de quem visita a quinta.

Para João Paulo Magalhães, responsável pelo Enoturismo de Ventozelo, esta integração é fundamental para que a sustentabilidade seja percebida pelo visitante. «É importante que o que fazemos na gestão da propriedade tenha continuidade no enoturismo. Não faria sentido falar de sustentabilidade no campo e depois esquecê-la quando entramos no hotel, no restaurante ou nos quartos».

A parceria com a Oliófora, marca artesanal de cosmética natural sediada em Amarante e fundada por Daria Maximova, é um desses casos. A colaboração começou em 2022 com a produção de sabonetes naturais e evoluiu este ano para um projecto de economia circular que aproveita matérias-primas e resíduos da própria quinta. A alfazema cultivada em Ventozelo e os restos de limão e laranja são agora utilizados na produção do gel de lavagem, loção corporal, champô e amaciador disponibilizados nos quartos.

João Paulo Magalhães, responsável de Enoturismo de Ventozelo com Daria Maximova, da Oliófora
Os novos amenities de Ventozelo nascem de uma parceria sustentável

E o circuito não termina aí. Ventozelo fornece à Oliófora alfazema seca e resíduos de citrinos, enquanto a marca devolve farinha de amêndoa, resultante da produção dos seus óleos e obtida a partir de amêndoa comprada a produtores do Douro. Na Cantina de Ventozelo, esse subproduto é utilizado na confecção da tarte de amêndoa e dos biscoitos oferecidos aos hóspedes e clientes do restaurante onde ao leme encontramos o Chefe José Guedes. «Começámos a olhar para aquilo que tínhamos na quinta e, sobretudo, para aquilo que não estávamos a aproveitar. Se temos alfazema, citrinos ou excedentes da horta, a questão é perceber como podemos dar-lhes outra utilização. Às vezes, a sustentabilidade começa em decisões muito simples», afirma João Paulo Magalhães.
(Na foto de entrada: João Paulo Magalhães, ao centro, com Elsa Couto (Marketing e Comunicação da GranVinhos) e Dária Maximova (da Oliófora) à esquerda, e José Guedes (chefe de cozinha do restaurante de Ventozelo), à direita)

É um exemplo simples, mas ajuda a perceber uma lógica que começa a atravessar toda a operação. O que sobra num ponto pode ganhar utilidade noutro, o que é produzido na quinta procura permanecer dentro do circuito. E, quando é necessário recorrer ao exterior, a preferência recai sobre fornecedores próximos e produtos da região.

Ventozelo já aplica esta lógica noutras áreas. A troca de excedentes da horta biológica com outras quintas é uma prática consolidada e o pão e os enchidos servidos na propriedade são comprados a produtores locais. A intenção é reduzir desperdícios, aproveitar melhor os recursos disponíveis e encurtar distâncias entre produção e consumo.

Este modelo encaixa bem na própria estrutura da quinta. Ventozelo tem mais de 500 anos de história e cerca de 400 hectares, dos quais 200 ocupados por vinha. Os 29 quartos e suítes estão instalados em edifícios históricos recuperados e a oferta de enoturismo inclui provas de vinho e azeite, percursos pedestres, um centro interpretativo dedicado ao património local e a Cantina de Ventozelo, onde a cozinha trabalha segundo uma lógica de proximidade e aproveitamento dos produtos da propriedade.

Ventozelo fornece à Oliófora alfazema seca (em cima) e resíduos de citrinos (em baixo) para produzir os amenities do hotel



A relação entre enoturismo e sustentabilidade começa logo aí. O visitante entra numa quinta produtora de vinho, é verdade, mas também lá vemos a vinha a conviver com a horta, os citrinos, a alfazema, a gastronomia, os percursos na paisagem e a recuperação do património construído. Quando estes elementos são trabalhados em conjunto, a experiência ganha coerência e a sustentabilidade deixa de ser apenas um argumento de comunicação.

Os novos amenities ajudam também a prolongar essa ligação. Entre eles encontram-se sabonetes naturais, fragrância própria, spray de alfazema para almofada, sais de banho e pequenos sacos de alfazema utilizados nos espaços da propriedade.

Há ainda uma dimensão importante neste modelo. O enoturismo torna-se um ponto de contacto entre agricultura, hotelaria e consumo. Um resíduo de limão pode acabar num produto de cosmética; a farinha resultante da produção de óleo de amêndoa regressa à mesa; a alfazema cultivada na quinta entra nos quartos e pode depois ser comprada pelo visitante. Tudo circula dentro de uma mesma narrativa, mas sustentada por práticas concretas.

Ventozelo mostra que a economia circular aplicada ao enoturismo não exige operações espetaculares, mas sim atenção aos recursos, capacidade de criar circuitos úteis e uma leitura integrada da propriedade. Quando isso acontece, a sustentabilidade deixa de ser uma palavra abstracta e passa a fazer parte da forma como a quinta funciona.