O rebelde dos vinhos naturais
Em Yumbel, na região de Bío-Bío, no Chile, Manuel Moraga Gutiérrez representa a sétima geração de uma família ligada à vinha desde o século XVIII. Defensor convicto dos vinhos naturais, recebeu-nos no Cacique Maravilla, a sua propriedade com vinhas de sequeiro, castas antigas e métodos que quase desapareceram de muitas adegas chilenas.
Manuel Moraga é uma personagem marcante da região Bío-Bío e percebemos isso pouco depois de chegar a Cacique Maravilla. Uns dias antes tinha sofrido um acidente com um tractor, mas nem isso o impediu de nos receber, falar das suas ideias e nos acompanhar a passo lento pela propriedade. É um acérrimo defensor dos vinhos naturais e fala deles com a convicção de quem não chegou recentemente a este universo por influência de uma tendência internacional. Grande parte daquilo que hoje se associa a uma viticultura de menor intervenção já fazia parte da forma como a sua família sempre trabalhou.
Cacique Maravilla fica em Yumbel, a cerca de 50 quilómetros da costa do Pacífico, e a história da vinha remonta a 1776. Manuel Moraga representa a sétima geração da família ligada a estas terras. Segundo nos revela, Cacique Maravilla terá sido a 33ª vinha registada no Chile, número que ainda hoje aparece nas rolhas das garrafas, que encomenda à corticeira Amorim.
O tem também uma história curiosa. Segundo a tradição familiar, Francisco Gutiérrez Gutiérrez, antepassado de Manuel, chegou das Canárias ao Chile em meados do século XVIII e estabeleceu-se nesta zona. A relação que manteve com o povo Mapuche ter-lhe-á valido a alcunha de ‘Cacique Maravilla’. A designação, que associa a figura do cacique, ou líder indígena, à ideia de alguém particularmente admirado ou respeitado, atravessou gerações e acabaria por dar nome aos vinhos.
Durante muito tempo a família vendeu uvas e vinho a granel, como aconteceu com tantos pequenos viticultores desta parte do Chile. Foi Manuel quem mudou esse caminho e começou a engarrafar os vinhos da família com marca própria, procurando dar-lhes uma identidade e, progressivamente, levá-los para outros mercados.
A tarefa não começou da maneira mais fácil. Manuel assumiu a propriedade depois da morte do pai, em 2009, e no ano seguinte o grande terramoto que atingiu o Chile provocou grandes estragos na adega. Mas reconstruiu-a e continuou a produzir, mantendo uma forma de trabalhar bastante afastada do modelo das grandes adegas chilenas.
As vinhas são cultivadas em sequeiro, sem irrigação, e a vindima é manual. Manuel não utiliza herbicidas nem fertilizantes químicos e parte dos trabalhos continua a ser feita com cavalos. Um dos seus maiores tesouros são as vinhas antigas, plantadas em pé-franco, sobreviventes de uma viticultura anterior à chegada da filoxera à Europa que no Chile, pôde continuar sem recurso a porta-enxertos americanos.




É sobretudo a casta País que impressiona pela vitalidade. Uma das castas fundadoras da viticultura chilena foi levada para a América pelos espanhóis no século XVI e durante séculos dominou as vinhas do país. Geneticamente é a mesma casta conhecida como Listán Prieto nas Canárias e Mission na Califórnia. Com a chegada das castas francesas ao Chile no século XIX, perdeu protagonismo sendo relegada para segundo plano com a expansão das outras variedades. E durante muito tempo ficou associada a vinhos simples e de consumo local, embora as vinhas velhas que hoje sobrevivem sobretudo no centro e no sul do Chile estejam a ser recuperadas por vários produtores.
Em Cacique Maravilla encontramos exemplares com mais de 200 anos e a idade não lhes retirou vitalidade. Manuel revela que algumas destas plantas chegam a produzir 20 quilos de uva por ano, uma quantidade surpreendente para cepas tão antigas, que normalmente produzem muito pouco à medida que envelhecem (a título de comparação, no Douro há vinhas com mais de 100 anos cuja produção média pode ficar entre cerca de 0,3 e 0,5 kg de uva por cepa). Os solos, conhecidos localmente como trumao, são de origem vulcânica e característicos de várias zonas do sul chileno.
É na adega que se percebe ainda melhor a filosofia de Manuel. As fermentações são espontâneas, com as leveduras presentes nas próprias uvas, os vinhos não são filtrados e várias referências são engarrafadas sem adição de sulfitos. Há pouco recurso à mecanização e a gravidade é utilizada sempre que possível nas movimentações do vinho.
Sobrevivem também utensílios e práticas antigas. Um deles é a zaranda, estrutura tradicional utilizada para separar os bagos dos engaços, num processo manual que durante gerações fez parte da produção de vinho nesta região. Encontramos igualmente recipientes de raulí, uma madeira proveniente de uma árvore nativa do Chile e tradicionalmente utilizada para guardar vinho antes de o carvalho francês se tornar presença habitual nas adegas.
Como já foi dito, a casta País nunca desapareceu destas terras do Cacique Maravilla e ocupa um lugar central na propriedade. É a base do Pipeño, um dos vinhos que melhor identifica Cacique Maravilla, apresentado na tradicional garrafa de litro e feito para ser bebido jovem, recuperando um estilo profundamente ligado ao mundo rural chileno.
Contudo, também aqui se trabalha a Moscatel de Alejandría, Cabernet Sauvignon, Malbec, Torontel e Corinto. A gama mostra bem a liberdade com que Manuel encara a produção, passando pelos tintos e brancos até vinhos de Moscatel com maceração das películas, espumantes Pet Nat ou Chacolí. Mais do que procurar uniformizar os vinhos, interessa-lhe manter as diferenças entre castas, vindimas e parcelas.
Na prova tivemos oportunidade de conhecer o Chacolí Rosé, leve e descontraído, seguindo para o Pipeño que, já se sabe é feito a partir da casta País num registo muito ligado à cultura rural chilena. Provámos também o Gütflower, um branco elaborado a partir de Moscatel, Torontel e outras castas, fresco e de perfil bastante natural, e o Cot, um tinto que junta Malbec, Cabernet Sauvignon e País.



A ligação ao movimento dos vinhos naturais acabou por abrir a Cacique Maravilla portas que dificilmente estariam ao alcance de um pequeno produtor de Yumbel há algumas décadas. Os vinhos começaram a viajar e Manuel marcou presença em várias edições da RAW Wine (organização internacional dedicada aos vinhos de baixa intervenção, fundada pela Master of Wine Isabelle Legeron), em cidades como Nova Iorque, Los Angeles, Montreal, Berlim e Tóquio. Actualmente, a produção ronda as 40 mil garrafas anuais.
É uma história interessante dentro do momento que Bío-Bío atravessa. Enquanto outras regiões chilenas construíram a sua reputação internacional com grandes investimentos, tecnologia e castas francesas renomadas, aqui encontramos uma família que continuou a trabalhar vinhas de sequeiro e castas que durante muito tempo tiveram pouco valor comercial. Manuel Moraga pegou nessa herança e colocou-a dentro da garrafa.
Com um discurso por vezes radical na defesa do vinho natural, é impossível ficar indiferente à personagem. Manuel fala das vinhas e dos vinhos com convicção, defendendo uma forma de trabalhar que atravessa gerações e à qual permanece profundamente ligado.