Um vinho sem pressa
Há projectos que vivem da continuidade e outros que esperam pelo momento certo. O H.O Pontão Vinhas Velhas pertence ao segundo grupo. A segunda edição deste tinto, correspondente à colheita de 2022, foi apresentada recentemente em Lisboa, confirmando a intenção da adega H.O – Horta Osório de o produzir apenas quando a qualidade da vindima o justifica.
A H.O, pertencente à Menin Wine Company, do empresário brasileiro Rubens Menin, situa-se na Quinta do Pontão da Cumieira, em Santa Marta de Penaguião, no Baixo Corgo. A propriedade, cuja origem remonta a 1791, ganhou um novo impulso após integrar o grupo, mantendo como prioridade a valorização das vinhas velhas e da identidade duriense.
A apresentação da segunda edição do tinto topo de gama H.O, produzido 100% com vinhas velhas, assinalou assim um momento de grande significado para o grupo, contando com a presença dos enólogos Tiago Alves de Sousa e Manuel Saldanha, que explicaram o trabalho desenvolvido desde a vinha até ao lote final. O objetivo, exigente, foi o de produzir um vinho que traduza o carácter das vinhas mais antigas da propriedade, com capacidade para envelhecer durante muitos anos.
«O Pontão Vinhas Velhas resulta de diferentes parcelas de vinha antiga, com destaque para a parcela Travessas, instalada em solos xistosos, a cerca de 350 metros de altitude, com exposição nascente/sul. São condições que permitem obter uvas de grande equilíbrio», explicou Tiago Alves de Sousa, revelando ainda que «o Baixo Corgo é uma sub-região que assume a sua estrutura e a sua intensidade, mas onde também se encontra elegância, frescura e esse mesmo equilíbrio».
A colheita de 2022 estagiou durante 23 meses em barricas de carvalho, seguindo-se mais um ano em garrafa antes de chegar ao mercado. No aroma é um tinto com notas complexas de ginja, balsâmico e especiarias, acompanhadas por apontamentos de café e madeira. Na boca mostra profundidade, estrutura e uma frescura que revela a influência das vinhas velhas.


Sendo um vinho especialíssimo, nem todas as vindimas dão origem ao Pontão Vinhas Velhas. A seleção começa na vinha e prolonga-se na adega, onde apenas as barricas consideradas excepcionais passam a integrar o lote final. É essa exigência que explica o reduzido número de edições deste vinho. «As vinhas velhas continuam a ser um dos maiores patrimónios do Douro. Plantadas muito antes da mecanização e da seleção clonal, reúnem frequentemente dezenas de castas no mesmo talhão, contribuindo para vinhos de maior complexidade e equilíbrio. No caso do Pontão estão mais de 30 castas e o Souzão manifesta-se bem e dá o cunho», explica o enólogo Manuel Saldanha. E remata: «As vinhas têm uma baixa produção, são por isso vinhas pouco rentáveis, e é precisamente essa limitação que ajuda a explicar a concentração e a personalidade do Pontão».
A história da H.O. continua, assim, a escrever-se a partir de um património de gerações. As vinhas velhas, algumas com muitas dezenas de anos, são hoje um dos maiores activos da propriedade e constituem a base de um projeto que procura afirmar-se pelos vinhos e não pela quantidade produzida.
Num Douro onde continuam a surgir novos projectos, a H.O continua a olhar para as vinhas antigas como um património a preservar e deixa que seja a natureza a decidir o momento de voltar a engarrafar o Pontão Vinhas Velhas.