Van Ardi: O renascimento do vinho arménio
Quando Varuzhan Mouradian abandonou uma sólida carreira como contabilista em Los Angeles para regressar à Arménia e plantar vinhas, poucos acreditaram no projeto. Quase duas décadas depois, a Van Ardi tornou-se numa das adegas que melhor simboliza o renascimento do vinho arménio e a recuperação de uma tradição com mais de cinco mil anos.
Em 2008, Varuzhan Mouradian tomou uma decisão pouco comum. Deixou para trás uma carreira de sucesso como contabilista certificado em Los Angeles, na Califórnia, vendeu a empresa e regressou à Arménia com a mulher, Anahit, e os quatro filhos. O destino escolhido foi Sasunik, uma pequena localidade da região de Aragatsotn, nas encostas do Monte Aragats, situada a cerca de 20 km a noroeste de Erevan, onde criou uma adega numa altura em que a qualidade do vinho arménio ainda não era visível.
A aposta parecia arriscada. Ao longo dos séculos, sucessivas invasões, conflitos e mudanças de fronteiras fragilizaram a produção. Mais tarde, durante o período soviético, a viticultura foi reorganizada segundo uma lógica industrial. A prioridade deixou de ser a identidade dos vinhos para dar lugar à quantidade. Grande parte das uvas passou a destinar-se à produção de brandy, uma das bebidas mais emblemáticas da antiga União Soviética, enquanto muitas castas tradicionais sobreviveram apenas graças à persistência de pequenos agricultores que continuaram a cultivá-las quase por ‘caturrice’ e tradição familiar.
Assim, quando a Arménia conquistou a independência, em 1991, o setor encontrava-se praticamente obrigado a recomeçar. Existiam vinhas, existia conhecimento ancestral e castas únicas, mas faltava investimento, reconhecimento internacional e produtores dispostos a apostar numa nova geração de vinhos. Foi precisamente nesse contexto que nasceu a Van Ardi.
O interesse internacional pelo património vitivinícola arménio ganhou novo impulso em 2011, quando arqueólogos anunciaram a descoberta da adega mais antiga conhecida do mundo, na gruta de Areni-1. As datações por radiocarbono situaram a adega entre os 4100 e 4000 a.C., ou seja, cerca de 6.100 anos de antiguidade. O complexo detinha grainhas de uvas, recipientes de fermentação e até prensas, reforçando a importância histórica da Arménia na origem da cultura do vinho. Foi precisamente no potencial dessa herança histórica que Varuzhan Mouradian decidiu acreditar.
Antes de se lançar no negócio, para fazer tudo bem feito, estudou viticultura, enologia, produção e gestão de adegas, frequentando cursos especializados na Universidade da Califórnia, em Davis, uma das instituições de maior prestígio mundial no sector dos vinhos. E aos poucos foi desenhando na mente o projecto de criar vinhos profundamente ligados ao território e às castas tradicionais da sua terra natal.



Em Sasunik, onde comprou a propriedade, encontrou solos vulcânicos ricos em minerais, vinhas implantadas a cerca de 1.050 metros de altitude e um microclima marcado por dias quentes, noites frescas e ventos constantes. Condições que favorecem uma maturação lenta das uvas e reduzem naturalmente a incidência de doenças, permitindo uma viticultura de reduzida intervenção. Foi assim que rapidamente a Van Ardi se tornou numa das primeiras adegas boutique da Arménia, e uma referência na nova geração de produtores arménios.
O produtor concentrou-se na valorização de variedades indígenas como a elegante e fresca Areni Noir , ou a Voskehat, uma das mais antigas castas brancas do Cáucaso, consideradas duas das grandes referências da viticultura nacional. A sua filosofia de produção assenta numa agricultura biológica e numa intervenção mínima na adega, procurando que cada vinho reflicta o terroir de origem. A inspiração biodinâmica também faz parte do projeto, embora sem radicalismos. Um dos aspetos mais invulgares e criativos da propriedade é também a utilização da música como parte integrante do ambiente das vinhas. Durante todo o ano, entre as videiras ouvem-se composições clássicas, jazz e música tradicional arménia, acompanhadas pelo som dos sinos da propriedade.
Apesar da visibilidade alcançada, a dimensão familiar continua a definir a identidade da Van Ardi. Varuzhan Mouradian acumula as funções de fundador, diretor, enólogo e responsável pelas exportações. A mulher, Anahit, dirige toda a componente gastronómica da adega, desenvolvendo experiências de harmonização entre vinhos e a cozinha arménia. A filha mais velha, Ani, concebeu o programa de visitas e lidera actualmente o marketing e a comunicação da empresa, e outra das suas filhas, Arpi, é a responsável pelas Relações Públicas da empresa.







Nos últimos anos, a família deu um novo passo na recuperação das práticas ancestrais da viticultura arménia. Inspirados por descobertas arqueológicas, alguns vinhos começaram a ser vinificados em recipientes de basalto esculpidos manualmente, numa interpretação contemporânea de técnicas utilizadas há milhares de anos. Hoje, a Van Ardi exporta para vários mercados europeus e norte-americanos e tornou-se um dos principais embaixadores do vinho arménio.
Quanto ao enoturismo, a Van Ardi oferece visitas à propriedade, provas comentadas, harmonizações gastronómicas e um calendário regular de eventos culturais e gastronómicos. Dele fazem parte brunches dominicais, jantares temáticos, noites de cinema ao ar livre, e encontros sazonais que transformam a adega num espaço de lazer e convívio, que complementam a simples prova de vinhos, proporcionando uma experiência muito completa.
Num território onde o vinho faz parte da identidade nacional há milénios, a Van Ardi demonstra que recuperar o passado pode ser também a melhor forma de construir o futuro.