Symington anuncia Vintage 2024
A Symington Family Estates anunciou a declaração universal de Porto Vintage 2024, encerrando o mais longo interregno desde 2017. A decisão assinala o regresso a um perfil clássico, marcado pela elegância, num ano que o grupo descreve como um reencontro com a pureza histórica do Douro.
Para quem não está tão familiarizado com o mundo do Vinho do Porto, importa esclarecer que declarar um Porto Vintage é a decisão de um produtor de classificar uma colheita como excecional, e e de engarrafar os seus melhores vinhos, com elevado potencial de envelhecimento. É, por isso, uma ocasião especialíssima, quase solene, que assinala um ano de referência na história do Douro e de cada casa que o declara.
Dito isto, a Symington Family Estates (SFE) anunciou a sua declaração de Porto Vintage 2024, pondo fim a um intervalo de sete anos desde a última declaração universal, em 2017. A apresentação oficial desta declaração decorreu recentemente no restaurante Matriarca, no Porto, espaço do grupo, onde foram reveladas as diferentes expressões da colheita.
Segundo explicou Charles Symington, enólogo e membro da família, «a decisão resultou da avaliação qualitativa dos vinhos produzidos neste ano» e não de critérios comerciais, «mantendo a prática histórica de apenas declarar Vintage quando se verificam condições consideradas excepcionais».
De acordo com o enólogo, «o período entre 2018 e 2023 foi marcado por ciclos vitícolas irregulares, com precipitação inconsistente e episódios de calor intenso durante o verão. Embora tenham sido produzidos vinhos classificados como muito bons e, em alguns casos, excepcionais, não se verificou de forma consistente o equilíbrio necessário entre maturação fenólica, acidez e estrutura para uma declaração clássica».
O ano vitícola de 2024 apresentou assim um padrão distinto. Segundo explicou ainda Charles Symington, um inverno com precipitação significativa permitiu a reposição das reservas hídricas no solo, seguido de um ciclo vegetativo com temperaturas moderadas. A floração ocorreu no início de maio e o pintor entre a primeira e a segunda semana de julho, datas alinhadas com a média histórica da região. A vindima iniciou-se no início de setembro e prolongou-se até ao início de outubro, decorrendo de forma sequencial, com cada casta a ser colhida no seu ponto de maturação ideal. A habitual leitura meteorológica e descrição do ciclo vegetativo feitos pela Symington Family Estates integra, há décadas, o discurso da família e pode, à primeira vista, soar excessivamente detalhado. No entanto, está longe de ser um exercício descritivo. É precisamente essa sequência de dados que ajuda a explicar a origem e o perfil dos vinhos produzidos.
Um dos elementos destacados foi também a temperatura das uvas à chegada às adegas, situada entre 20 e 22°C, o que permitiu realizar fermentações sem necessidade de arrefecimento ou aquecimento artificial na maioria dos casos. Este factor contribuiu para uma evolução fenólica considerada equilibrada, com boa expressão aromática, acidez estável e cor intensa. Todos estes detalhes fazem da família Symington um dos principais referenciais na leitura e interpretação das grandes vindimas do Douro.
Entre as castas, a Touriga Nacional apresentou em 2024 bons níveis de maturação e acidez equilibrada, tendo sido vindimada a partir de meados de setembro. No entanto, a Touriga Franca, casta de maturação mais tardia, foi apontada como determinante para o perfil da colheita, beneficiando de condições favoráveis no final de setembro que permitiram atingir concentração e expressão aromática consideradas típicas de anos de referência.

Uma Declaração Clássica
A declaração de 2024 abrange as principais casas do grupo (Graham’s, Dow’s, Warre’s e Cockburn’s) bem como vinhos de quinta e edições de produção limitada, incluindo a Quinta do Vesúvio, Quinta de Roriz, Graham’s The Stone Terraces e Capela da Quinta do Vesúvio. No total, são várias interpretações de um mesmo ano, com diferenças associadas à origem das uvas, composição das castas e estilo de cada casa.
O Graham’s 2024 mantém o perfil tradicional da marca, caracterizado por maior opulência e expressão aromática, com predominância de fruta preta e notas balsâmicas, apoiadas por taninos polidos e acidez equilibrada. A produção situa-se nas 5.935 caixas, correspondendo a cerca de 15% da produção da casa.
O Dow’s 2024 apresenta uma estrutura mais firme e um perfil mais seco, com notas de frutos negros, chocolate e componente mineral. Produzido a partir de uvas da Quinta do Bomfim e da Quinta da Senhora da Ribeira, representa cerca de 5.535 caixas, ou 17% da produção da casa, evidenciando uma estrutura mais tensa e final caracteristicamente seco.
O Warre’s 2024 distingue-se por um perfil mais leve e aromático, associado a vinhas de maior altitude e a uma elevada proporção de vinhas velhas. Apresenta notas florais e frescura marcada, com uma estrutura mais elegante e menos concentrada. A produção ronda as 4.280 caixas, cerca de 13,5% do total.
O Cockburn’s 2024 evidencia um perfil mais estruturado e taninos presentes, com forte presença de Touriga Nacional. Caracteriza-se por notas de fruta vermelha, especiarias e componentes mais terrosos, mantendo a identidade mais robusta da casa. A produção é de 2.980 caixas, cerca de 7,5% do total.
Entre os vinhos de quinta, o Quinta do Vesúvio 2024 apresenta uma combinação de estrutura e frescura, com produção baseada no método tradicional de pisa a pé em lagares de granito. A Touriga Franca assume um peso relevante na composição do lote, contribuindo para a definição do perfil do vinho.
O Quinta de Roriz 2024 evidencia uma componente mineral. O vinho apresenta um perfil equilibrado, com notas florais e fruta definida, sustentado por acidez fresca.
Nas edições de micro-terroir, o Graham’s The Stone Terraces 2024 é produzido em quantidades muito limitadas, a partir de parcelas específicas de socalcos de pedra na Quinta dos Malvedos. Caracteriza-se por elevada concentração, resultante de produções muito baixas e de condições particulares de exposição e solo.
O Capela da Quinta do Vesúvio 2024 representa o nível mais restrito de selecção, sendo produzido apenas em anos considerados excepcionais. Resulta da combinação de parcelas específicas da propriedade e de co-fermentações entre diferentes castas, originando um vinho de maior complexidade estrutural e aromática.
No conjunto, os vinhos do ano 2024 apresentam características comuns, nomeadamente equilíbrio entre acidez e açúcar, boa definição aromática e taninos estruturados, apontando para capacidade de envelhecimento prolongado. Ao mesmo tempo, mantêm diferenças claras entre si, reflectindo a diversidade de estilos das casas e das origens das uvas. E, para quem conhece bem as marcas do principal produtor de Vinho do Porto premium e líder no segmento de topo, as diferenças e identidades de cada marca são bem evidentes. O Graham’s tem um perfil opulento e envolvente; o Dow’s maior estrutura e um final seco; o Warre’s é elegante e fresco; e o Cockburn’s é robusto e tânico. Nos vinhos de quinta, o Vesúvio alia potência e finesse, enquanto o Roriz evidencia maior mineralidade. Já nos micro-terroirs, o Stone Terraces tem concentração e pureza, e o Capela do Vesúvio é complexo e estruturado.