Elegância líquida
Há umas semanas escrevi aqui no site sobre a família Bouza e o seu projeto de Las Espinas, em Maldonado, mas hoje volto o olhar para a adega inicial da família, a histórica Bodega Bouza, situada em Melilla, nos arredores de Montevidéu, uma das referências incontornáveis do vinho no Uruguai. Esta família espanhola de imigrantes, originária da Galiza, estabeleceu-se no país há várias décadas e, com ousadia, decidiu apostar na plantação da casta Alvarinho, praticamente inexistente na região naquela altura. Esta decisão permitiu-lhes encontrar caminhos criativos na produção dos seus vinhos e inaugurar uma tendência na plantação desta casta que hoje é seguida por diversas outras adegas uruguaias.
Durante uma visita ao restaurante da família Bouza, em Las Espinas, na região de Maldonado, tive a oportunidade de provar um dos vinhos de topo da casa: o Cocó Chardonnay Albariño 2023, um dos melhores vinhos do produtor. Gostei tanto que não resisti e trouxe mais uma garrafa para casa (eu, que já evito comprar tanto vinho por o ter a sobrar por todos os cantos da casa)!
Antes que o leitor esboce um sorriso por causa do nome (já imaginam porquê), é importante sublinhar a sua importância já que é um vinho de homenagem, carregado emoção familiar. Cocó é a alcunha de Socorro López, mãe de um dos fundadores da Bodega Bouza, assim chamada carinhosamente pela família. Um vinho que conta a história da paixão da matriarca da família pela combinação de Chardonnay e Albariño, castas que gostava de beber mas também utilizava para cozinhar, convicta da frescura, elegância e equilíbrio destas variedades. Foi esta memória que inspirou a criação deste blend, no qual a Chardonnay assume um papel dominante, complementado pela vivacidade aromática do Albariño.

Em termos técnicos, o Cocó 2023 é composto por 70% Chardonnay e 30% Albariño, proveniente de uma colheita manual realizada nas parcelas de vinha de Las Violetas (Canelones) e Melilla (Montevidéu). A Chardonnay é fermentada e envelhecida sobre borras finas em barricas de carvalho durante nove meses, dando-lhe textura, complexidade e estrutura, enquanto a Albariño permanece em tanques de aço inoxidável, preservando frescura, fruta e vivacidade. Após a vinificação de cada parcela, os vinhos são loteados mantendo a Chardonnay em maior proporção, resultando num branco fresco, elegante e equilibrado, com envasamento realizado no início do ano seguinte à colheita, para assegurar que o vinho chegue ao mercado com todo o seu equilíbrio e expressão aromática.
No copo, o nariz revela aromas intensos e complexos, onde predomina a fruta branca e tropical, nuances cítricas e florais, e um subtil toque de baunilha da madeira onde estagiou e que está muito bem integrada. Na boca, é fresco e envolvente, com acidez vibrante e textura cremosa, onde a Chardonnay dá estrutura e a Albariño confere elegância e vivacidade, culminando num final longo e persistente. Bem bom!