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Las Espinas, Onde a vinha encontra o mar

Em Punta Negra, no leste do Uruguai, o oceano não se vê sempre, mas sente-se. No vento que atravessa as vinhas, no sal que lentamente escurece a madeira da nova adega, na acidez natural dos vinhos que ali nascem. Las Espinas é o projeto mais recente da Bodega Bouza, a síntese de quase três décadas de decisões ponderadas e riscos calculados. Um lugar que fala mais alto do que a técnica.

A história da família Bouza começa na Galiza, região espanhola de onde partiram há muitas décadas, e continua em Las Piedras, nos arredores de Montevidéu, onde se fixaram em meados do século XX. A ligação à agricultura sempre esteve presente, mas foi apenas no final dos anos 1990 que Elisa Trabal e Juan Bouza decidiram transformar um sonho antigo num projecto concreto. O objetivo sempre foi elaborar vinhos de qualidade superior exclusivamente a partir de uvas próprias para o mercado uruguaio e internacional, respeitando o território e criando uma empresa vitivinícola sustentável, económica, ambiental e de valores humanos.

O primeiro passo deu-se em 1998, com a compra de 15,4 hectares de vinhas em Las Violetas, na região vitivinícola de Canelones, plantadas com as variedades Tannat, Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Dois anos depois, em 2000, a família adquiriu uma antiga adega construída em 1942 pela família Pesquera, em Melilla, a norte de Montevidéu. A vinha que a rodeia, com 10,4 hectares, já tinha plantadas as variedades Chardonnay, Alvarinho, Merlot, Tempranillo e Tannat. Assim nasceu oficialmente o novo negócio, a Bodega Bouza.

Para dar consistência técnica ao projeto, Elisa e Juan associaram-se a Eduardo Boido, engenheiro químico, doutor em Enologia pela Universidade de la República, investigador e uma das figuras mais respeitadas da enologia uruguaia. A sua entrada foi decisiva, já que Boido desenhou um estilo de vinhos muito precisos, gastronómicos, sem excessos, onde a potência não exclui a elegância.

Entre 2002 e 2009, a implantação de novas vinhas em Las Violetas e Melilla continuou, e a Bouza começou a diferenciar-se por uma ousadia pouco comum na época. Fiéis às suas raízes galegas, decidiram plantar Albariño e Tempranillo (Alvarinho e Aragonês), duas castas ibéricas praticamente inexistentes no Uruguai. O tempo viria a confirmar a visão, já que o Albariño da Bouza tornou-se num vinho emblemático, abrindo caminho para que outras adegas fizessem o mesmo e contribuíssem para a evolução da vitivinicultura da região e produção de vinhos uruguaios modernos.

Um ano mais tarde, em 2010, a família tomou outra decisão que mudaria definitivamente a escala e a ambição do projecto. Decidiram expandir-se e plantar em Maldonado (região premium de forte influência marítima, maior humidade e noites frescas) outros 7,5 hectares de vinha situadas a leste, junto ao Cerro Pan de Azúcar, numa zona de solos bem diferentes, profundamente pedregosos, pobres, com excelente drenagem, marcados por cascalho e baixa fertilidade. E se Pan de Azúcar representou o primeiro contacto com um Uruguai mais atlântico e agreste, Las Espinas, também em Maldonado, com vinhas plantadas em 2016, ultrapassou todos os limites. São 6,1 hectares de solo extremo, com grandes rochas, cuja extração exigiu um trabalho físico e financeiro considerável. As vinhas, de sequeiro, sem irrigação, fazem a videira lutar para sobreviver.

A adega está elevada do chão, por pilares
A adega é um quadro vivo com vista para o mar
Um projecto pensado para a produção de vinhos de qualidade



Estas duas vinhas diferenciam-se entre si pela orientação. Pan de Azúcar está voltado a norte, e Las Espinas, a sudeste. Uma diferença crucial, já que Las Espinas recebe menos calor directo, produzindo uvas com maior frescura, menor teor alcoólico e acidez natural mais marcada. É aqui que o projecto começa a ganhar identidade própria.



O sonho ganha forma em Las Espinas

Embora o embrião do projecto date de 2008, foi apenas em 2023 que se iniciou a construção da Adega Las Espinas, pensada exclusivamente para vinificar as uvas provenientes da região de Maldonado. Em 2025, a adega entrou em funcionamento, realizando a sua primeira vindima e vinificação no local. No final do mesmo ano, abriu as portas ao público.

Os edifícios que compõem a adega são, por si só, uma declaração de intenções. Próximos do oceano, foram concebidos para envelhecer com o tempo. Têm uma estrutura metálica galvanizada a quente, resistente ao ambiente marítimo; madeira dura não tratada, que escurecerá com o salitre; e uma cobertura de cobre, destinada a ganhar uma pátina verde natural com a passagem do tempo. Inspirada nos espigueiros galegos, a adega está elevada sobre pilares e tem uma cave semi-enterrada. Divide-se em três módulos: recepção e classificação das uvas, fermentação e zona de guarda e estágio. Os depósitos de aço inox são de parede dupla, permitindo um controlo térmico rigoroso. Nada é decorativo, tudo é funcional e simbólico.

Dos cinco filhos de Elisa e Juan, dois integram hoje os quadros da empresa. Juan Pablo Bouza, é desde 2017 o gerente, supervisionando áreas administrativas, estratégicas e de expansão. Agustín Bouza, o mais jovem (na foto de entrada), é enólogo e actua como braço-direito de Eduardo Boido. Foi Agustín quem esteve diretamente envolvido na vinificação inaugural de Las Espinas, em janeiro de 2025. E é ele quem nos diz que Las Espinas é um lugar que nos ensina humildade. Segundo Agustín, em Las Espinas o estilo não se impõe, ele existe.  Basta sentir o vento, o solo e o ritmo da vinha. Resta-lhes o trabalho de saber interpretar.

Os vinhos de Las Espinas confirmam essa filosofia. Se dizemos que o Alvarinho da Bouza é um vinho emblemático (limpo, floral, untuoso, com uma acidez cítrica cortante); o Chardonnay de Las Espinas, mesmo sendo um vinho de uma casta francesa, não lhe fica atrás. É, provavelmente – exceptuando os da Borgonha – um dos melhores Chardonnays provados por quem vos escreve. Proveniente de vinhas próximas do oceano, é fermentado e estagiado em barricas de segundo e terceiro uso. No nariz, revela fruta suave e mineralidade, e no paladar salinidade subtil, fruta branca madura e notas herbáceas. Na boca, é seco, intenso, vibrante, sustentado por uma acidez equilibrada. Um Chardonnay claramente gastronómico e prazeroso. Já nos tintos provados, o Tannat Las Espinas mostra músculo, mas com contenção, enquanto o Pinot Noir expressa delicadeza e frescura, beneficiando da orientação sudeste das vinhas.

No que diz respeito ao enoturismo, desde cedo a família Bouza percebeu que a proximidade de Montevidéu tornaria inevitável a visita de turistas e apreciadores de vinho. Foi essa percepção que motivou a criação do Restaurante Las Espinas, inaugurado em Dezembro de 2022, como parte integrante do projeto da Bodega Las Espinas.

O Restaurante Las Espinas foi inaugurado em Dezembro de 2022
A proposta gastronómica destaca-se pela utilização de produtos locais e sazonais
A carne urugaia tem um lugar de destaque
No menu, figuram pratos que reflectem a identidade da região
Os pratos são preparados com criatividade e atenção aos sabores naturais
Sabor e criatividade



O restaurante nasceu como uma extensão natural da experiência enoturística, oferecendo aos visitantes a oportunidade de compreender o ciclo completo do vinho desde a vinha ao copo. Localizado no topo do cerro de Las Espinas, com vista panorâmica de 360 graus sobre as vinhas e o Oceano Atlântico, o restaurante permite apreciar a beleza do cenário e a autenticidade do terroir, ao mesmo tempo que provamos os vinhos de Las Espinas e de Bouza.  

A proposta gastronómica destaca-se pela utilização de produtos locais e sazonais, preparados com criatividade e atenção aos sabores naturais. No menu, figuram pratos que reflectem a identidade da região, entre os quais cortes nobres de carne uruguaia, cordeiro e novilho, peixes e frutos do mar frescos, colhidos nos portos próximos, além de entradas como empanadas gourmet, carpaccios e outros petiscos de fazer crescer água na boca. As sobremesas artesanais, incluindo frutas e gelados caseiros, encerram a refeição com delicadeza, prolongando a experiência sensorial.

Desde a sua abertura, o restaurante tem se destacado. A experiência de quem lá vai é intimista, sempre com grupos reduzidos e reserva prévia obrigatória, garantindo assim uma atenção personalizada por parte da equipa e uma ligação direta à filosofia da adega. A não perder!