Crónica

Chryseia (2023) sempre afinado

Ainda não tinha conseguido escrever sobre a nova colheita deste vinho lançado há meses mas não podia deixar terminar o ano sem o fazer! Acompanhar o nascimento de um projeto é sempre um exercício de paciência e observação, e o da criação do Chryseia não foge à regra. Lembro-me dos primeiros passos desta aventura iniciada em 1999, uma união que, à época, foi audaz, pois deu largas à ideia de fundir o savoir-faire de Bordéus com a profundidade e a alma indomável do Douro.

A mais recente colheita, 2023, lançada há poucos meses, veio acrescentar mais um capítulo a esta história de amizade entre duas grandes e poderosas famílias do vinho a nível mundial (Prats & Symington). O palco foi o Matriarca, o mais recente espaço da família Symington na Baixa do Porto, onde se pode beber bons vinhos e petiscar. Ver Rupert Symington e o seu sobrinho Anthony, representantes da 4.ª e 5.ª gerações dos Symington, ao lado de Bruno e Florent Prats (pai e filho) a família bordalesa que trouxe para o Douro o seu know-how francês, é perceber que este projeto é, como Bruno Prats gosta de definir com graça, um verdadeiro ‘casamento sem crises’. Um casamento que se consolidou como símbolo de amizade, seriedade e visão entre duas das mais prestigiadas famílias do mundo do vinho.

Para quem, como eu, acompanha este percurso de perto, a presença de Bruno Prats é sempre um dos pontos altos dos lançamentos do Chryseia. Ouvir quem foi durante três décadas co-proprietário, CEO e enólogo do mítico Château Cos d’Estournel falar sobre o Douro, é uma verdadeira lição de humildade e de visão. Prats trouxe para Portugal uma busca obsessiva pela finesse e pela elegância, moldando um perfil de vinho que, desde a histórica colheita de 2001 (a primeira de um vinho tranquilo português a integrar o Top 100 da Wine Spectator) nunca mais deixou de surpreender. E se hoje este projeto olha com confiança para o futuro, é também porque a continuidade está assegurada. Depois de uma longa carreira na área de investimentos em bancos privado, Florent Prats está agora encarregue dos negócios de família e já acompanha de perto o projecto Chryseia. Será ele a dar seguimento ao projeto quando o pai decidir, um dia, trocar as vinhas do Douro por um merecido descanso nas Bahamas onde, imagino, o vinho dará ocasionalmente lugar a um rum envelhecido ou uma margarita!



Já do lado duriense, graças aos Symington, a maioria dos jornalistas e apreciadores mais atentos conhece quase de cor o estado do tempo e das vindimas de cada ano no Douro. Aquilo que para muitos é uma conversa banal – se vai chover ou fazer sol – para os Symington é algo muito sério e é uma conversa que pode levar horas. Falar do clima, da água disponível no inverno, do stress hídrico do verão, entre tantas outras situações ligadas à meterologia e ao seu impacto na natureza é uma conversa obrigatória para que se perceba porque é que um vinho resulta de uma determinada forma e não de outra. É esse detalhe, contado com clareza e até humor, que ajuda a compreender o carácter de cada colheita.

O protagonista do dia, o Chryseia 2023, nasceu de um ano vitícola exigente, que pediu resiliência às vinhas e aos homens. Um inverno generoso em chuva permitiu enfrentar um verão seco, conduzindo a uma maturação equilibrada e a uma notável complexidade fenólica. No copo, este blend de 72% Touriga Nacional e 28% Touriga Franca revela frescura, precisão e uma elegância que já é assinatura da casa. Após 15 meses de estágio em barricas de carvalho francês, apresenta taninos finos, textura sedosa e um registo aromático onde violetas e frutos negros dançam em perfeita harmonia.

A experiência foi ainda elevada pela mestria do chef Pedro Lencastre Monteiro, que criou uma seleção de pratos pensada ao detalhe para acompanhar a estrutura e a elegância deste 2023. É fascinante constatar como o Chryseia continua a ser um pioneiro, provando  uma vez mais  que o Douro pode ser tão aristocrático quanto potente.

Durante o lançamento, tive a oportunidade de acompanhar a prova ao lado de Florent que, tal como o pai, é um gentleman e um grande conhecedor de vinhos. E é reconfortante perceber que está preparado para assumir o projecto sem perder a capacidade de questionar e pensar o futuro.

O vinho, esse, está notável. Saí do Matriarca com a convicção de que o Chryseia 2023 mantém com rigor o rumo traçado há mais de duas décadas, ser a expressão mais elegante do terroir da Quinta de Roriz e dos seus arredores. Arrisco mesmo dizer que está entre os melhores Chryseia que provei até hoje. Para quem acompanha esta viagem quase desde o início, assistir à continuidade deste projecto que mantém a essência de Bruno Prats, é a melhor garantia de que este amor entre Bordéus e o Douro está longe de terminar.