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O número de blogs em Portugal tem vindo a aumentar, bem como a dinâmica em torno dos mesmos. Entre as várias temáticas encontra-se o vinho, com seguidores fiéis. Talvez seja hora de os produtores começarem a prestar atenção ao fenómeno. |
Engenheiros, profissionais de marketing, técnicos de segurança alimentar, professores. Em suma, pessoas comuns cujo gosto pelo vinho as fez expressar as suas opiniões vínicas através de blogues. É este o panorama dos blogues portugueses dedicados ao vinho. E a verdade é que muitos têm um número considerável de fieís seguidores.
«Quando comecei a acumular artigos sobre vinho, decidi criar o blogue», conta Rui Miguel Massa, um professor de matemática que mantém há três anos o Pingas no Copo. Foi graças às ligações da sua família ao vinho e através garrafeira Coisas do Arco e do Vinho, onde fez provas durante muito tempo, que conseguiu a proximidade com este mundo. «As coisas começaram de forma muito embrionária e tentei sempre fazer uma crítica literária, usando poucos termos técnicos e muitas imagens do dia-a-dia. Tento que seja um blogue cultural sobre a temática» explica.
Na parte da blogosfera dedicada ao vinho, toda a gente conhece Rui Miguel: foi um dos primeiros a surgir e um exemplo para os que começaram há pouco tempo. «Aprendemos muito com ´os mais velhos´» diz Joel Carvalho que, em conjunto com o seu irmão gémeo, Raul, dinamizam o espaço Nariz à Boca há cerca de sete meses. A dupla, natural de Sintra, ganhou gosto pelo vinho depois de frequentar o curso profissional de técnico de viticultura e enologia. O entusiasmo levá-los-ia à mudança para Carregal do Sal, um meio mais rural e vinícola, onde actualmente tratam da segurança e higiene alimentares de duas quintas. Segundo o jovem, o mais importante é reter que «os bloguistas são pessoas humildes e normais que provam vinhos». No entanto, a definição não é assim tão linear.
Marco Carvalho, responsável pelo blogue Marketing de Vinhos, é um apreciador de vinhos e trabalha diariamente com os mesmos mas não se arrisca a publicar notas de prova. «Uso o blogue como uma ferramenta de trabalho. Obriga-me a estar actualizado» explica o profissional de marketing ao serviço da Quinta da Nespereira, situada no Dão. Marco trabalha com este produtor há já cinco anos e foi a vontade de ter alguma formação ligada ao vinho que o levou até Ponte de Lima para fazer uma pós-graduação em marketing de vinhos. Marco sabe que o formato do seu blogue é uma excepção num mundo composto por montras de provas acumuladas. Para o marketeer, isso talvez aconteça porque «os blogues são uma forma de chegar às pessoas, ao passo que as publicações são algo tendenciosas protegendo as marcas importantes e não dando voz às mais pequenas».
Digital versus papel
No geral e independentemente da temática da plataforma online, a proliferação e a dinâmica das mesmas é uma realidade indiscutível. Portugal não é excepção. No entanto, as opiniões veículadas são frequentemente consideradas alternativas e minoritárias, à excepção de dois ou três blogues mais influentes, normalmente dedicados à política. Será que no mundo do vinho essa realidade está a mudar e os bloguistas não o admitem? «Mais cedo ou mais tarde acredito que formato digital vai ultrapassar o papel. Tenho reparado que, todas as vezes que faço post´s sobre questões polémicas, as visitas disparam. Os blogues já têm um mercado definido mas não somos tanto opinion makers já que o nosso mercado é muito pequeno. No entanto a crítica tradicional está a perder força» opina Rui Miguel Massa. E a maior parte dos criadores destas plataformas pensa da mesma forma.
Jorge Prata e João Pedro de Carvalho são mais dois exemplos de pessoas sem formação na área do vinho que decidiram aventurar-se na exposição da sua paixão na blogosfera. Jorge Prata, físico de formação, criou o blogue O Puto Bebe em 2008, por influência de um amigo. «Em 2002 tínhamos um blog que não tinha nada a ver com a área e depois, devido ao meu gosto, decidi criar este. Ali publico essencialmente opiniões sobre vinho e, como uma coisa leva à outra... acrescentei também a comida», explica. Já João Pedro de Carvalho sempre conheceu de perto o mundo do vinho já que visitava frequentemente a Cooperativa de Borba, acompanhado pelos pais e avós. Em 2005, deu início ao Copo de 3 porque precisava de um arquivo de fotos e notas. «Fui acumulando tantos vinhos que já não sabia o que fazer» explica o engenheiro do ambiente de formação, acrescentando que a divulgação viria a ser feita por um amigo, à sua revelia. O sucesso não se fez esperar e hoje é um dos blogues mais visitados.
Mesmo com números de visitas dignos de atenção, os bloguistas não se convencem da sua imposição no mundo do vinho. Joel Carvalho arrisca mesmo a dizer que «em Portugal os bloguistas são vistos muito abaixo da pirâmide» ao passo que, para João Pedro de Carvalho, os utilizadores de blogues são amadores mas, caso apresentem «um trabalho consistente, qualquer pessoa os pode acompanhar». «Afinal, quem são os críticos? Onde se tira essa especialização?» atira para o ar. «Não me parece que os blogues ultrapassem os críticos em termos de formação de opinião. Mas é uma tendência que se deve inverter: o número de críticos não tem aumentado e o número de bloguistas explodiu» admite por outro lado Jorge Prata. Lembra, no entanto, que «os bloguistas chegam sempre a um número e tipo determinado de leitores e os críticos têm ferramentas para chegar até quem não os quer ler».
O que dizem os estudos
O crescimento do número de blogues é um dado adquirido e confirmado por vários estudos. Quanto à área do vinho, uma recente investigação do Instituto do Negócio do Vinho (INV) da Universidade de Sonoma State (Califórnia) veio revelar dados surpreendentes: nos últimos 5 anos os blogues de vinho aumentaram de um para 700. O mesmo estudo veio também responder à questão que mais tem sido colocada perante esta realidade. Afinal, devem ou não os produtores prestar atenção aos bloguistas de vinho?
Segundo o grupo de cientistas californianos, sim. A investigação concluiu também que as opiniões publicadas nos blogues podem ter um impacto real na marca que se deve ao facto de o número de blogues continuar a crescer e à disponibilização de softwares gratuitos para a criação das plataformas facilitando o aparecimento dos mesmas.
Dando um exemplo, Filipa Almeida, uma das responsáveis pelo envio de garrafas da Herdade dos Grous, assume que os blogues «começam realmente a ser uma ferramenta de divulgação». No entanto, só envia exemplares para bloguistas quando há um pedido formal. E nessas ocasiões, explica Filipa, «há o cuidado e o interesse de ver o que foi publicado e o que outras pessoas comentam». De futuro, talvez esta situação tenda a alterar-se um pouco com uma maior preocupação com estas vertentes online. Diz o estudo da Sonoma Estate que os blogues podem ser uma excelente alternativa quando não se consegue atingir os meios de comunicação, sobretudo no que diz respeito aos pequenos e médios produtores.
No entanto, há que ter atenção à ausência de rastreio dos conteúdos que são publicados, somada à facilidade de criar um blogue. Segundo os investigadores do INV, os produtores devem monitorizar o que é dito online acerca das suas marcas, dado que há bloguistas com grande conhecimento sobre vinhos e outros que se limitam a dar opiniões deficitárias, sendo visíveis «grandes variações» na qualidade da escrita e no nível de sofisticação, avança o relatório. Esta conclusão vem relembrar a atenção que é necessária ao amadorismo que os blogues muitas vezes apresentam. «Todos nós somos humanos e passíveis de influência, embora muitos continuem a não assumir isso. Acho que a massa crítica é elitista e não fala com o povo. Os blogues, nesse aspecto, evoluíram muito», relembra Rui Miguel Massa.
O estudo da Sonoma Estate veio também confirmar que a maior parte dos blogues contém notas de prova, geralmente classificadas em escalas que vão até 5, 20 ou 100. O segundo tema mais abordado diz respeito a blogues que falam de vinho mas também de comida ou restaurantes. Quem visita a blogosfera pode encontrar ainda outros espaços com formação sobre vinhos: como fazer vinho, noções de viticultura, regiões e toda a cultura associada ao vinho.
Tornar-se-ão os blogues de vinho instrumentos de formação de opinião num mercado com as características do nosso? Só o futuro o dirá. Para já, talvez seja altura de os produtores começarem a ponderar a influência que estas plataformas começam a ter.