Sobre a generosidade

Preciso de vos contar uma história. Foi ainda a trabalhar no Expresso que lancei o meu primeiro livro ‘Memórias do Vinho’, em condições inimagináveis. Nenhuma editora arriscaria publicar o livro de uma autora desconhecida, ainda por cima um álbum com quase 400 páginas, capa dura e papel de qualidade. Mas o projecto era apaixonante e eu decidi ir em frente, tendo a sorte de reunir uma equipa maravilhosa que me acompanhou desde o início sem saber se algum dia iríamos ser recompensados por todo esse trabalho. Uma dessas pessoas foi o António Loja Neves, meu querido amigo e colega no Expresso (revisor e jornalista), que desde o início se entusiasmou com a ideia. O António, que tinha um coração enorme e uma cultura infinita, era também um homem dado aos prazeres da mesa, que incluíam, logicamente, a degustação de bons vinhos. Portanto, a pessoa ideal para fazer parte deste livro que conta a história de vinte produtores / famílias do vinho em Portugal. 


Acontece que no meio deste processo, que durou quatro anos, o António foi diagnosticado com um linfoma e, para fazer tratamentos, foi para o IPO onde esteve internado nove meses. Logicamente, porque a sua saúde era o mais importante, disse-lhe que largasse o trabalho, prometendo-lhe que retomaríamos a revisão do livro quando saísse. Mas o António não me deu ouvidos e disse-me que o continuaria a rever. Para isso bastaria levar-lhe os textos ou enviar-lhe por e-mail, já que a sua ideia era não parar de trabalhar, mesmo estando no hospital. E garantiu-me que, por ele, o livro seria lançado. Assim foi. O António cumpriu o prometido. Fez e revisão do livro e saiu do IPO, pronto para novos combates. E eu fiquei-lhe profundamente grata, pelo profissionalismo, pela amizade, pela generosidade. 
O livro acabou por ser lançado em 2007 através da Civilização, tendo-lhe sido concedida a chancela de Interesse Cultural pelo Ministério da Cultura. Muitas foram as vezes em que troquei impressões com o António sobre as histórias dos produtores, sobre a construção de frases, sobre a melhor forma de escrever. Aprendi muito com o António. Dizia-lhe na brincadeira que além de mim, ele era o único que conhecia o livro tão bem como eu, e o único com quem eu poderia sempre falar sobre o ‘nosso’ livro. Agora que o António partiu já não posso falar mais sobre o livro nem sobre outras coisas que nos animavam a alma. Mas sei que nunca o vou esquecer. Pessoas raras não se encontram todos os dias. 

Foto: Desobedoc

 
 
 
 

Mai, 28, 2018

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