Vinhos entre a terra e o céu

Há muitos produtores e apreciadores de vinho que me perguntam como é que são seleccionados os vinhos para bordo dos aviões da TAP. Este artigo que fiz há uns anos para a UP Inflight Magazine mantém-se actual e explica bem não só o processo de selecção como revela o método de como as provas foram feitas. Aqui vai então a pedido de várias famílias ;)

NOVOS VINHOS A BORDO: ENTRE A TERRA E O CÉU

O publicitário francês Jean Jacques Séguéla tem uma frase famosa que diz “Não conte à minha mãe que trabalho em publicidade... Ela pensa que sou pianista num bordel!”. Pois bem, com os críticos de vinho é mais ou menos a mesma coisa... Que dizer de uma pessoa que acorda de manhã e passa o dia a provar e a cuspir vinho? Louco? Excêntrico? Ok… fora os exageros que o imaginário possa criar, a técnica é mesmo esta quando o objetivo é avaliar e dar a conhecer as características sensoriais de um vinho.
Parece tarefa fácil mas não é. São anos a provar. Para avaliar bem, um paladar tem de treinar muito, provar muitos vinhos de todos os tipos e estilos, portugueses e estrangeiros, para conseguir comparar e assumir a responsabilidade de selecionar os melhores vinhos, neste caso, para entrarem a bordo dos aviões da TAP. É preciso utilizar a técnica e deixar o gosto pessoal de lado, perceber quais são os mais equilibrados e os que vão agradar mais ao viajante, que tanto pode entender de vinho, como ser um leigo na matéria. Tudo isto em prova cega e… sempre a cuspir!
De um modo geral, a comida de avião sempre foi alvo de críticas. Mas, na última década, a TAP bem pode orgulhar-se de se ter destacado entre as companhias aéreas concorrentes pelo investimento realizado numa estadia a bordo mais apetitosa, tanto ao nível da comida, como dos vinhos. Neste último caso, um grupo de jornalistas e críticos de gastronomia e vinhos (incluindo quem vos escreve) é convocado para provar exaustivamente até encontrar os melhores vinhos que depois serão consumidos nas classes económica e executiva, nos médios e longos cursos. Entrar a bordo nos aviões da TAP é benéfico para os produtores, que ficam a fazer parte daquela que é a primeira montra de vinhos portugueses que os estrangeiros conhecem antes de andar pelo nosso país a descobrir locais e novos sabores.

Prova inovadora
Este ano, a prova foi ainda mais especial, porque incluiu algumas novidades interessantes do tipo: ‘vou ali à ilha Terceira de avião provar vinhos em altitude e já volto!’. Sim, voámos de propósito até aos Açores e regressámos logo depois, só para testar os vinhos no ar! É que a TAP está sempre em cima do acontecimento e, de acordo com diversos estudos sobre o ambiente em cabine de avião, a altitude tem influência no modo como são percebidas as refeições, incluindo os vinhos. A atmosfera ultrasseca da cabine desidrata o corpo e faz com que se perca 30 por cento das nossas capacidades sensoriais. O olfato fica menos apurado e uma boca seca não consegue captar os aromas mais subtis devido à redução de saliva necessária para ativar as papilas gustativas. Os estudos apontam ainda que diferentes sons e cores também podem afetar a perceção dos sabores. Por exemplo, o mesmo alimento pode parecer diferente se estivermos a prová-lo com dois diferentes tipos de música, assim como diferentes cores podem sugerir sabores mais ou menos intensos. É verdade, lá em cima, tudo é diferente, e isso ficou provado nas pontuações dadas em terra e no ar. A comida também ajudou, e muito, a perceber quais seriam os melhores vinhos a bordo. Resumindo: vinhos brancos e tintos jovens, aromáticos e frutados resultam melhor em altitude do que vinhos mais alcoólicos, complexos, com madeira, que demonstraram taninos mais agrestes.

A seleção dos vinhos
Para a TAP é importante encontrar vinhos que espelhem a nossa qualidade, riqueza e variedade. De forma a conseguir chegar a um grande número de produtores, a companhia contactou a ViniPortugal para difundir junto das Comissões Vitivinícolas de cada região o perfil dos vinhos pretendidos.
O processo de seleção é explicado à partida, sendo que um dos principais requisitos é serem vinhos bem pontuados/premiados em revistas da especialidade e concursos, nacionais e internacionais. Por sua vez, as Comissões contactam os produtores que finalmente enviam as amostras para a TAP. Será no departamento de logística que é feita a primeira pré-seleção de vinhos, sendo logo retirados aqueles que não têm capacidade produtiva (quantidades), preço competitivo ou dificuldades em manter a qualidade de colheita para colheita. Depois já sabem. A parte mais interessante fica mesmo para nós, os especialistas, que temos o privilégio de os provar… Haverá melhor trabalho que este?

  
 

Jan, 22, 2018

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