Novo valor à vista

Ninguém imagina o que nos aparece à frente quando somos júri num concurso de gastronomia. Restaurantes bons, claro, mas depois há ainda restaurantes assim assim, restaurantes maus, restaurantes péssimos, e aqui continuaria o dia todo a adjectivar e a brincar com as palavras para classificar os locais que nos calham na rifa. Depois há aqueles que excedem as expectativas e nos surpreendem. Foi o caso do restaurante Viva Lisboa, inserido no hotel Neya (4 estrelas), na Rua D. Estefânia. Já o ano passado lá tinha ido e ficado surpreendida, quando nos trouxeram à mesa três pratos consistentes em técnica, apresentação e criatividade. Um deles, o prato de carne, lembrava um verdadeiro jardim. A fazer de ‘relva’ estava um puré verde, e dele surgiam as ‘flores’, ou antes, legumes baby primorosamente colocados como se fossem flores. Ao lado, a costeleta de borrego, que parecia um tronco de árvore. Mais espantada fiquei quando os chefes vieram à mesa, Diogo Pimentel e Bruna Morais, ambos com 21 anos, com caras de miúdos acabados de sair da primária 😃 O certo é que o restaurante ganhou nesse ano os prémios ‘Diploma de Ouro’ e também o de ‘Melhor sobremesa’ (que também era excelente, mas não tão criativa, na minha opinião) no 7º Concurso de Iguarias e Vinhos do Tejo.Este ano calhou-me novamente na rifa o Viva Lisboa. E, para minha surpresa, que julgava que os miúdos já não iam lá estar - porque eventualmente poderiam ter saído para trabalhar noutro sítio com maior visibilidade - percebi que a Bruna já tinha ido embora (saiu para um novo projecto de comida saudável) mas o Diogo ainda lá estava, de pedra e cal, a liderar o restaurante e a defender a sua cozinha de autor. Passado um ano, o Diogo já parece um aluno de liceu 😃 e tive a oportunidade de falar um pouco mais com ele para saber o seu percurso. Resumindo a história, tirou o curso na Escola de Hotelaria de Coimbra, e estagiou / trabalhou nos três melhores hotéis de Coimbra (incluindo o Quinta da Lágrimas, o mais relevante). Terminados os estudos veio para Lisboa em 2015, tendo ingressado na equipa do chefe Pedro Santos Almeida, discípulo de Miguel Laffan. Foi durante este percurso que enriqueceu as suas qualidades e adquiriu a capacidade de liderar sozinho, desde 2017, o restaurante Viva Lisboa. Este ano, os pratos apresentados mostraram novamente técnica, consistência e criatividade, esta última presente principalmente na sobremesa, uma torta… de azeitona! Muito simples mas absolutamente deliciosa. O miúdo arriscou, e ganhou. Ainda não sei os resultados do concurso, mas vendo pela experiência do ano passado, acho que o restaurante vai ganhar mais um ou dois prémios. E também sei que, num país em que nascem mais chefes do que cogumelos, este é mais um, mas sinto que o miúdo vale a pena. Tenho a certeza que em breve ouviremos falar mais sobre o Diogo.
 

Dez, 13, 2017

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